Deus é Urbano, Demasiadamente Urbano

 

Por Thiago Damasceno

Responda rápido: Deus é da cidade ou do deserto? Sua figura está mais para um trabalhador estressado de uma metrópole ou mais para um respeitável mestre exilado em um deserto de rochas e areia? Se você associou a imagem do Criador Onipotente a um velho eremita em um mar de areia, leia o que se segue.

Em suas obras, baseadas em profundas e sérias pesquisas, a norte-americana Karen Armstrong defende o nascimento das grandes religiões nos meios urbanos. Tomemos como exemplo apenas as mais influentes crenças monoteístas até hoje: judaísmo, cristianismo e Islã. Como essas três religiões nasceram no denominado “Oriente Médio” e como associamos direta e intensamente essa região a desertos, climas quentes, paisagens áridas, etc, logo relacionamos os surgimentos das três crenças a homens devotos isolados entre dunas de areia e montanhas de pedras. Nada mais fantasioso.

Para começo de conversa, segundo as tradições religiosas, o pai espiritual de judeus, cristãos e muçulmanos, Abraão, recebeu o chamado divino para sair da cidade de Ur dos caldeus até a Terra Prometida. Moisés, nome-chave do judaísmo, deixou o urbanizado egípcio para guiar os hebreus pelo Deserto do Sinai. A Palestina de Jesus Cristo tinha várias cidades onde se desenvolviam importantes e distintas atividades. Muhammad nasceu e começou a pregar no contexto comercialmente agitado de Meca, a mais importante cidade da Península Arábica no século VII. Quantas referências há ao termo “cidade” nesse parágrafo? Várias.

Imagens e conceitos relacionando Deus ao deserto sempre estiveram no nosso imaginário ocidental. Não é à toa. Narrativas das três tradições monoteístas colocam o deserto como um lugar de provação, de testes, de penitência, de cura, enfim, de busca pelo sagrado. No entanto, a antiga teoria que defendia que o monoteísmo é uma religião nascida na solidão do deserto não resistiu às pesquisas históricas. Estas mostram inclusive o contrário: os grandes líderes habitavam em contextos urbanos dinâmicos, conturbados, carregados por problemas públicos, como extremas desigualdades sociais, violência e escravidão. Nesses cenários começaram a ser esboçados os primeiros princípios e dogmas das religiões que tomamos como exemplo neste texto.

Sendo indivíduos sensíveis e dotados de um forte senso crítico e observador, líderes religiosos como Jesus e Muhammad (os casos que mais conheço) enfatizaram a igualdade, a justiça e a equidade social em suas mensagens espirituais. Parte do preço social pago foi a perseguição e demais ações de opositores. Mesmo assim, Jesus fundou um império espiritual e, Muhammad, um império espiritual e político.

Em tempos em que a religião monoteísta é usada para atividades mil, convém lembrar sua origem, no seio dos problemas urbanos, quando messias e profetas não eram apenas instrutores no campo individual e subjetivo, mas também no campo social e objetivo, alertando para os problemas que as sociedades geravam e alimentavam. Nesse quadro, ao deserto coube o silêncio e a observação, a observação atenta e quieta aos rumos que as mensagens espirituais tomariam. E o deserto sabe, antes de tudo, que Deus não é um velho solitário que o habita, mas sim um Sujeito urbano, demasiadamente urbano.

 

E-mail: thiagodamascenohistoria@gmail.com

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