Selvageria Adormecida

Fenômenos sociais como a passagem da vida nômade para a vida sedentária, desenvolvimento da agricultura, estabelecimento de cidades, criação de sistemas de escrita e de leis organizadas em códigos influenciaram nossos ancestrais a saírem do dito “estágio selvagem” para o chamado “estado civilizado” da existência, onde nossas selvagerias desapareceram. Pelo menos é o que afirmam certos estudos com uma perspectiva progressista e evolucionista que colocam a civilização ocidental, europeia, branca e urbana no auge do desenvolvimento social humano. Essa visão é bastante influenciada pelo cientificismo europeu do século XIX, mas vem sendo muito criticada nos últimos tempos. O assunto é complexo e exige discussões que extrapolam o espaço desta crônica. A questão que quero trabalhar aqui é a seguinte: Será mesmo que nossas selvagerias foram extintas pela tal “civilização”?

A resposta é… “Não”.

Dificilmente (para não dizer “nunca”) um fenômeno histórico desaparece por completo. Fenômenos históricos são manifestações e processos que surgem e vão permanecendo com mudanças e/ou ressignificações. Um exemplo disso é a nossa democracia ocidental, cujas origens remontam à Grécia Antiga (1100 a.C. – 146 a.C.). De lá para cá, muita coisa mudou e alguns aspectos permaneceram nesse sistema político que, não posso esquecer de afirmar, anda bastante instável em nossas terras brasileiras.

Posto isso, vejo a selvageria como um fenômeno histórico, como um traço humano ao mesmo temo instintivo e cultural que nos alimenta e que é por nós alimentado da Pré-História (ou História Pré-Ágrafa) até hoje, quando combatemos a ameaça microscópica das bactérias e encaramos a imensidão macroscópica do Sistema Solar. Contudo, os “avanços civilizatórios” disfarçam nossas selvagerias. É como se a “civilização” tivesse dado um “Boa noite, Cinderela” para o nosso lado silvestre. Por isso a selvageria permanece aqui e ali, mas latente, adormecida, esperando apenas alguns estímulos para despertar de vez, para extravasar.

Nossa selvageria está à espreita, atrás de cada linchamento à margem de julgamentos oficiais, atrás de cada discurso de ódio, atrás de cada preconceito negativo às minorias, atrás de cada vontade insana de ameaçar, atacar e matar o Outro, aquele sujeito que não sou eu e que representa tudo que é diferente de mim. A selvageria é regada pela impaciência, pela incompreensão e pela intolerância. Basta uma pequena faísca para acender seu barril de pólvora fazendo com que tudo voe pelos ares.

Não nos enganemos: não é a passagem do Tempo que nos torna melhores que nossos ancestrais. “4.000 a.C.” não é sinônimo de “atraso” e “Terceiro Milênio” não é exatamente sinônimo de “futuro”. A relatividade conceitual dessas Eras se mostra em períodos como agora, em que computadores superam o processamento do cérebro humano ao mesmo tempo em que odiadores e intolerantes de plantão saem do armário e vomitam palavras torpes no Facebook. Para isso, bastou algo ou alguém arrebentar a fechadura do armário aparentemente civilizado.

Mas quem são esses “algo” e “alguém”?

O “algo” é o mar de problemas sociais onde nos metemos, causando uma verdadeira avalanche de raiva, indignação e de medo. O alguém é aquele líder político, econômico ou religioso sedento por poder e por justificativas aos seus atos. É aquele que não fala, mas esbraveja. É aquele governo que pouco representa ou respeita seu povo e se deleita em um autoritarismo desenfreado. É aquele vizinho provocador, com quem você quase brigou no fim de semana por causa da sua música alta até tarde da noite…

… Somos eu e você com aquele pensamento violento que passou pelas nossas mentes, mas que, por algum motivo, seja por religião ou por senso de piedade, nós sentimos vergonha e deixamos o pensamento perverso dormir.

É melhor se ater a essa vergonha, a esse sentimento ligado à “civilização”. Se não for assim, acabaremos comprando o ingresso a juros altos para a 3º Guerra Mundial, onde nos relacionaremos uns com os Outros por meio de paus e pedras, como disse Albert Einstein.

 

Por Thiago Damasceno

E-mail: thiagodamascenohistoria@gmail.com

YouTube/Facebook: Orientalismo na Rede

 

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