As massas precisam de um “mito”

A essa altura do campeonato é foda ter que ouvir brasileiro chamando o New York Times de comunista porque falou mal do “nosso” querido Capitão do Mato, Jair Bolsonaro. Mais foda ainda é desses mesmos brasileiros ouvir que o Brasil é uma vergonha “lá fora”. Mas se somos vergonha lá fora, é por idolatrar e querer sermos iguais a quem invadiu nossa terra, explorou, matou, humilhou e estuprou o povo daqui! É por idolatrar quem dizimou nossos referenciais simbólicos de propósito para nos deixar reféns de uma cultura que não é nossa. “Ah, mas as coisas lá são mais baratas, por lá tudo funciona” – bradam em defesa do exterior. Mas é claro que sim, não duvido! Mas se são mais baratas e funcionam não é indiferente a serem caras e não funcionarem em outras partes do mundo. Isso não é aleatório pessoa de Deus.

Eles vieram aqui, roubaram toda nossa riqueza, nos impuseram uma maneira de funcionar pela servidão, pelo medo! Lá só pôde (e ainda pode) ser mais “desenvolvido” na medida em que continuemos a funcionar como escravos, servos, empregados, na divisão internacional do trabalho. Vou simplificar: A Europa só tem vida boa, porque você brasileiro tem vida ruim! Em minha defesa, indico dois livros. 1) As veias abertas da América Latina (Eduardo Galeano). Nele, dentre várias outras coisas, aprendemos a fazer uma conta simples: Pegue um preço de uma coisa qualquer na Europa ou nos EUA, e o preço de uma mesma coisa no Brasil. Subtraia! A diferença em $ pode ser convertida em litros de sangue dos povos nativos da América Latina que foram derramados pelos colonizadores. 2) O caráter nacional brasileiro (Dante Moreira Leite): nele Aprendemos, dentre outras coisas, que a forma mais fácil de ser amado por alguém é ser parecido com ele. Se estamos apanhando de alguém, supomos que para parar de apanhar é preciso que quem nos bate passe a nos amar.

Logo achamos que precisamos nos parecer com o nosso agressor para que ele pare de nos bater. Esse é o sentimento do brasileiro (colonizado) em relação ao EUA/Europa (colonizadores). E agora vamos eleger para presidente um cara que se diz nacionalista mas bate continência para a bandeira dos Estados Unidos da América. O que quero dizer é que a vontade do brasileiro em ser Estadunidense ou Europeu (ou de ser reconhecido como filhos legítimos e queridos deles) é tão grande que faz com que não enxerguemos que para sair da estrutura social da qual tanto reclamamos, primeiro temos que declarar a nossa independência em relação aos nossos opressores. Não é aprender a falar inglês, é fazer que quem venha ao Brasil aprenda o “Brasileiro” (porque é assim que se referem á nossa língua lá em Portugal, porque eles não querem falar a mesma língua que nós!). Mas vamos lá, ninguém disse ou achou que seria tão fácil fazer com que deixemos de pedir para sermos explorados, humilhados e espancados em troca da possibilidade de sermos amados por nossos opressores. Mas eu vou contar pra vocês um segredo: ou abrimos mão desse amor ou seremos sempre explorados.

E outro segredo: ou descobrimos como abrir mão do gozo que temos em ser explorados, e inventamos uma nova forma nossa de viver sem a mão opressora que guia nosso caminho, ou seremos para sempre as crianças que temem (mas esperam, quase pedem) a palmada. Aliás, agora acho que já posso falar abertamente. As massas precisam de um “mito” que lhes tratem como crianças imaturas e lhes dêem palmadas no bumbum, porque no fundo – e esse pode ser o nosso segredinho – é disso que eles gostam, de alguém que bata firme, mas que diga o que fazer.

 

André de Paulo Duarte – Psicólogo e Psicanalista. Mestrando em Psicologia na linha: “Bases históricas, teóricas e políticas da Psicologia”, da Universidade Federal de Goiás (UFG)

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Gestor Cultural, Educador, Turismólogo e criador do Goianidades.

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