Carnaval nosso protesto em forma de festa

A quarta de cinzas sempre chega e dessa vez de um carnaval tão politizado quanto o momento pede. Afinal de contas não foi no ótimo e necessário desfile da Paraíso do Tuiuti, que a cultura se mostrou pela primeira vez como instrumento de politização e reflexão das massas. Não dá pra dissociar a resistência à ditadura de 64 do movimento cultural surgido na época, a MPB e seus festivais foram à trilha sonora da luta contra o golpe militar, o teatro engajado e cada vez mais censurado, a produção cinematográfica se tornando mais subversiva. Nossa redemocratização foi marcada por uma forte crescente no rock nacional questionando nosso sistema, nossos empregos, nossas vidas.  E desde a década de 90 se destaca a luta incansável do hip-hop contra o extermínio da juventude negra e a criminalização da pobreza.

Esse carnaval foi realmente um grito da sociedade que desacredita nas instituições e não perdoou ninguém, em um uníssono  “fora temer” além de piadas com o judiciário, executivo e legislativo e a malfadada reforma da previdência. Os blocos, as fantasias, as músicas, os sambas-enredos e o povo são todos fundamentais nessa que é nossa maior manifestação  popular, que nunca foi despolitizada e sempre resistiu à desde à marginalização do samba até ao grande corte de verbas associada a uma forte onda reacionária.

O poder que uma escola do Rio de Janeiro tem é impressionante a Mangueira comprou a briga diretamente com o  prefeito Crivella em horário nobre, no meio da cidade, na frente de todo mundo e a vice-campeã pelo júri, porque se fosse levar em conta apelo popular a Paraíso do Tiuti teria ganhado facilmente, conseguiu constranger o maior grupo de comunicação do país, que em sua tradicional narração do desfile das escolas de samba, não sabia o que dizer durante seu desfile, com palavras desconexas e comentários soltos.

Ao trazer o tema da escravidão no Brasil, país em que muitos ainda acreditam no mito da democracia racial, de sermos um país sem preconceitos, Tuiuti esfrega na cara da sociedade o que canta o Emicida “favela ainda é Senzala Jão”. Que a Lei Áurea não libertou de fato, que existem formas “modernas” de escravidão,  que os paneleiros foram manipulados por quem tinha interesse em justificar a derrubada da Dilma e as reformas na verdade são para acabar com os direitos dos trabalhadores e enriquecer poucos, representada numa alegoria muito bem feita o “vampiro neoliberalista”.

Carnaval é isso, um bom recorte da nossa cultura, é festa, é protesto, é trabalho e diversão brincadeira das mais sérias, coisa nossa mesmo.

About Deryk santana 54 Articles
Gestor Cultural, Educador, Turismólogo e criador do Goianidades.

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