Crônicas da cidade: Ê ô, vida de gado… quer dizer, de cão!

Eixo Anhanguera - Foto: Ricardo Rafael

Calor. Barulho. Aglomeração. Gente com cara fechada, outras com tristeza no olhar, mas também há quem dê risada em meio à desgraça. Como pano de fundo está o coração da cidade, seu centro, no cruzamento de duas artérias da capital, as avenidas Anhanguera e Goiás.

A espera para chegar em casa aumenta. Como de praxe, os ônibus atrasaram e quando finalmente chega o primeiro, não é possível entrar. Mais se parece uma lata de sardinha, ou um caminhão de transporte de gado. Neste momento dá até pra imaginar o Zé Ramalho cantando.

Passa um, dois, três… Somente no quarto Eixo-Anhanguera pode-se respirar mais aliviado. Este está relativamente vazio. Vazio se comparado aos anteriores.

Cansada, provavelmente vindo depois de um dia de trabalho, uma mulher que aparentava seus 40 anos avista um banco. Já é possível ver um esboço de sorriso em seu rosto. Ela ajeita as sacolas na mão e caminha com passos apertados em direção ao assento. A pressa é medo de que outro se sente antes.

Quando ela já está de frente para o banco, um grito vem da porta: “Esse banco é meu!”. Um homem, deficiente de uma perna, travestindo uma camiseta com a bandeira brasileira, talvez para combinar com a bandana em seu pescoço que também possui estampa tupiniquim. Ele vai se aproximando do assento e sai empurrando e gritando palavras indecifráveis.

O homem não está sozinho, ao seu lado está um cão. Como se não bastasse à superlotação de pessoas, no ônibus também havia um cachorro. O animalzinho estava idêntico ao seu dono: camiseta e bandana no pescoço, ambas estampadas com a bandeira nacional.

A mulher olha indignada para o homem, julgando ser aquele, um ato de grosseria por parte dele, mas mesmo assim, deixou o moço de cabelos descoloridos, cor de gema de ovo, sentar-se. Para ele realmente seria tarefa difícil manter-se de pé, com suas muletas em um ônibus lotado.

Todos assistiram à cena, mas ninguém imaginava o que estaria por vir. Alguns deixam escapar risadas e expressões de boca aberta. O homem chega ao banco, coloca as muletas no cantinho e se senta no chão. O assoalho do ônibus estava imundo, pessoas pisaram o dia todo ali e sabe-se lá onde haviam pisado antes.

Sentado ao chão o homem chama seu mascote para perto e o ergue. O banco agora não pertence à mulher e nem ao homem de muletas. Agora quem faz o trajeto do Centro até o terminal Padre Pelágio sentado é o cão, que com a língua pra fora e o rabo balançando, parece contente. Seu dono logo dispara: “Ele pensa que é gente”.

A mulher fala algo com a pessoa do lado, parece não crer na cena. Não se sabe se por indignação ou por já chegar ao seu destino, mas ela resolve descer do ônibus. As atenções continuam voltadas para o cachorro, talvez por inveja. Afinal, fazer um trajeto sentado no Eixo-Anhanguera é privilégio.

Juliana Camargo
About Juliana Camargo 8 Articles
Jornalista, escorpiana, feminista, filósofa de bar e expert em assuntos aleatórios e sem nexo. Instagram: @jul.camargo

Be the first to comment

Leave a Reply

Seu e-mail não será publicado.


*