Dr. Dre e Jimmy Iovine, os deuses de duas gerações (Artigo de Rainer Gonçalves Sousa).

Ontem terminei de assistir a mini-série “The Defiant Ones”( Sim! Tem no Netflix!), que conta a história de superação e sucesso de Jimmy Iovine e Dr. Dre. Mas quem são esses dois caras? Para quem escuta rap e realmente curte o movimento hip hop, Dr. Dre equivale a qualquer grande figura do rock dos anos 1960 e 1970, período em que o referido gênero era o mais relevante da juventude espalhada pelos quatro cantos do mundo.

Já Iovine, para quem não se interessa muito pelos bastidores da música, é uma mistura de Cinderela com Midas. Chegado ao mundo da música na década de 1970, o franzino descendente de italianos tenta fazer música e logo nota que  isso seria uma grande tragédia. Apesar da frustração, sua relação aficionada por música o transformou num “rato de estúdio”, que, um belo dia, teve a grande sorte de auxiliar na produção de um álbum de ninguém menos que John Lennon.

Tocado pela experiência, passou as décadas de 1970 e 1980 surfando na força mercadológica e emotiva que o rock continuaria tendo nesse período. Em projetos cada vez mais bem-sucedidos, ele foi responsável pela produção e a reinvenção de nomes como Patti Smith, Tom Petty e Bruce Springsteen. Nessa época, seu auge foi correr insistentemente atrás do U2 até que os caras, que já estavam estouradíssimos, quisessem trabalhar com Jimmy.

 


Iovine, à esquerda, ao lado de dois gigantescos rockstars: Patti Smith e Bruce Springsteen (Fonte: Lori Grabon/Pinterest)

Enquanto ele crescia como produtor de talentos, Dr. Dre foi trilhando uma carreira de sucesso em uma realidade musical um tanto quanto diferente. Quando digo “diferente”, não me refiro somente ao recorte temático e estético que se relaciona com o próprio rap. Projetando-se numa vertente musical ainda nascente, Dr. Dre não surgiu dentro de uma lógica já estruturada. Atuando com grandes nomes no grupo N.W.A., ele se afirmava enquanto rapper ao mesmo tempo em que também se transformava em um outro exímio produtor musical.


Dr. Dre, de azul, na época do N.W.A., ao lado de Eazy-E e Ice Cube, no auge do gangsta rap. (Fonte: Jim Winter – WordPress.com)

O encontro entre essas duas forças criativas obstinadas acaba acontecendo na década mais “certa” possível: a década de 1990. “Certa” porque esse foi o período áureo da indústria fonográfica, em grande parte explicado pelo barateamento de custos trazido pelo CD. Nessa época, os dois passam a atuar na Interscope Records, um selo criado por um Iovine, agora mais interessado em orientar os nomes que gerenciariam os principais artistas do pop, do rock e do rap.

Dadas as fortes turbulências pessoais, Dr. Dre teve que encarar um período de fracassos artísticos. No entanto, a parceria empresarial com Iovine encolhia esse ponto negativo de sua carreira, que foi devidamente recompensada com a produção de fenômenos massivos e controversos do rap americano, como Tupac e Eminem. Escapando do clima pesado que tomou a Death Row Records, seu selo musical de origem, conseguiu desviar-se do destino trágico que muitos de seus companheiros de jornada tiveram que encarar.

Chegados os anos 2000, a dupla Dre/Iovine conseguiu lançar nomes de grande sucesso e promover a prática das parcerias (ou o famoso FULANO feat. CICLANO) como uma das mais prolíficas jogadas do mundo da música. Se um dia esses dois dissessem que LERAM e ENTENDERAM o-que-era-a-indústria-cultural-em-Adorno, eu jamais duvidaria. Os caras conseguiram emplacar nomes que seguiam modismos já consolidados, mas também ofereciam um pequeno elemento de inovação que – observados os números de venda – pareciam se tratar de uma profunda revolução cultural.

Ainda nos anos 2000, a digitalização da música anunciou para Iovine que o negócio de sua vida chegava ao fim. Muito antes de pensarmos em Spotify, e graças a uma relação muito bem consolidada com nomes da Intel e da Apple, ele já sabia que vender discos ia deixar de fazer sentido. Munido desse networking privilegiado, Iovine sacou que a música ia deixar de ser um PRODUTO e passaria a se tornar um SERVIÇO.

 

Iovine, Dr. Dre e a criação derradeira: o fone de ouvido “Beats”. (Fonte: iDownloadBlog)

Foi então que os dois grandes produtores de arte se converteram à condição de vendedores de… fones de ouvido. Criando a “Beats” em 2008, atuaram em campos diferentes e, ao mesmo tempo, complementares. Na condição de “rato de estúdio” e rapper, Dre foi o responsável por desenvolver o produto. Na condição de figurão dos bastidores, Iovine arregaçou as manguinhas e foi fotografar o “Beats” na cabeça de todas as celebridades que conhecia.

Conseguindo transformar o seu produto em modismo, fizeram grana com uma das poucas coisas ainda FISICAMENTE VENDÁVEIS no atual mundo da música. Quando todo mundo achava que chegaram a um patamar intransponível, Dre e Iovine venderam a sua marca por valores bilionários para a toda poderosa Apple. E, hoje, enquanto o streaming é o que orienta nossa escuta musical, os dois esticam as pernas depois de ditarem praticamente três décadas do consumo de música popular massiva.

De John Lennon a Lady Gaga, de Tupac a Kendric Lamar.

(Rainer Gonçalves Sousa é Mestre em História, Professor do IFG/Campus Goiânia)

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