É GOLPE (DA) UNB?

 

Confesso ter dificuldade com o conceito de “Golpe”. Não no sentido de negá-lo como fruto de processos histórico-políticos de nossa contemporaneidade brasileira. Antes, da apropriação que a “intelligentsia tupiniquim” operou para explicar – muitas vezes de forma conspiratória – nossos últimos eventos da politica nacional. Em suma, ao se esvaziaram tanto o conceito de golpe – que de uma categoria que bem explica certos eventos – ele passa a não explicar nada, mesmo querendo explicar tudo.

Pessoalmente, dificilmente faria uma disciplina como a sugerida pelo Departamento de Pós-Graduação em Ciências Políticas da UNB. Se fizesse, seria mais por curiosidade ou por apreciar pensadores como Nancy Fraser e Jacques Ranncière, do que pelo restante da ementa e seus títulos eufe(místicos). Me permiti a licença poética nessa última expressão…

Mas vamos aos fatos:

1) A disciplina é OPTATIVA. Logo, não faz parte do currículo básico e nem de matérias obrigatórias;

2) É uma disciplina de Pós-Graduação na área de Ciências Políticas, ofertada para pessoas com no mínimo uma formação acadêmica já sólida no nível de Graduação;

3) O professor tem autonomia acadêmica para trabalhar com hipóteses teóricas (a premissa do “Golpe”) e sugerir, a partir daí, uma disciplina com bibliografia farta e engendrar discussões e promover produções acadêmicas sobre a problemática. O resultado poderia gerar desde meras bajulações teóricas até contraposições relevantes. Tudo ia depender dos critérios de avaliação e desenvolvimento da disciplina.

E aqui vai uma problematização (para canhotos e destros):

— Se o título da disciplina fosse: “O discurso vazio do Golpe: o Brasil na rota da redemocratização e do crescimento econômico pós-PT”, estariam:

a) os burocratas do MEC, a sociedade civil e o MBL tão preocupados com a suposta partidarização ou entenderiam que é um relevante papel científico prestado pelo Departamento de Pós-Graduação em Ciências Políticas da UNB?

b) A galera do “Tudo é Golpe” aceitaria o título dessa disciplina e defenderia o direito de um docente/pesquisador desenvolvê-la, ou a censuraria enquadrando ela como exemplo de materialização discursiva e acadêmica do, adivinhem, “Golpe”?

c) As duas alternativas acima.

As perguntas foram retóricas! O gabarito também. Obrigado, tchau querida! (Ops)

AUTORIA: Diego Avelino de Moraes Carvalho -Doutor em História e Mestre em Filosofia, professor do IFG.

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