EM MEU NOME, NÃO (por Thiago Cazarim)

O UOL lançou o documentário “Do outro lado” sobre a situação da comunidade LGBT na Rússia, enfatizando o período recente no qual um recrudescimento do conservadorismo tem levado a inúmeras ações de Estado e da sociedade contra gays, lésbicas, bissexuais e pessoas trans (link aqui: https://www.uol/copadomundo/especiais/do-outro-lado.htm…). Embora tenha gente que ache que a narrativa jornalística está muito focada no entrevistador, e pessoas trans e bissexuais quase não tenham sido mencionados nas quatro partes do minidoc, o UOL acerta em cheio em abordar esse tema tão silenciado numa época em que a Rússia será alvo de atenção global em função da realização da Copa do Mundo. Tocar nessa ferida é uma boa forma de não recairmos mais uma vez no espírito de rebanho que louva um evento de massas como redentor de todos os problemas de uma nação ou região do mundo. Golaço jornalístico nesse ponto.

Mas há um problema seríssimo nessa empreitada jornalística. Logo no segundo episódio do documentário, o entrevistador deixa explícito que os entrevistados NÃO PODERIAM FICAR EM ANONIMATO. Isso não só é desmentido por um dos episódios seguintes (no qual um dos contatos da equipe de reportagem, que a ajuda a filmar o interior de uma boate LGBT em Moscou, tem sua identidade preservada), mas incorre numa transgressão ética terrível. Sabemos muito bem que toda entrevista, de pesquisa ou jornalística, deveria sempre manter a possibilidade de escolha do anonimato para os entrevistados/participantes, especialmente quando há riscos para a integridade física, financeira e moral destes. Como, aliás, é exatamente o caso das pessoas entrevistadas na Rússia. Por mais que no final do último episódio o entrevistador diga se solidarizar com quem mostrou sua identidade e ter noção dos riscos que essas pessoas correm, como é possível ser solidário somente a posteriori, tendo IMPOSTO a exposição do próprio nome e rosto? Quando nem no Brasil qualquer pessoa que queira prestar um depoimento a jornalistas (por exemplo, testemunhas de crimes) é constrangida a revelar em público seu nome, voz e rosto? Solidariedade na violência? Na violência que a própria empreitada jornalística pode ajudar a produzir?

Aqui dou um pitaco. Mostrar nomes, vozes e rostos sem dissimulações gráficas, verbais e sonoras, mostrar a pessoa em carne e osso, nomeada, com voz autêntica: quando isto é feito compulsoriamente, só serve para produzir um efeito realista: são pessoas reais dando depoimentos reais para um jornalismo que mostra a realidade como ela é. Esse tipo de efeito realista, porém, poderia perfeitamente ser substituído por outros, sem prejuízo para o teor da representação jornalística ou da compreensão do conteúdo. Por que não mostrar todos os rostos disformes, as vozes manipuladas digitalmente, os nomes modificados? Não é essa a situação da comunidade LGBT na Rússia: de pessoas sem cidadania, sem identidade, sem voz? Que realismo seria mais lícito e digno, mais eticamente comprometido que aquele que não dissimula a necessidade de dissimulação constante — digamos logo: o armário a que estas pessoas estão submetidas?

Aliás, uma pergunta: não se pode manter o anonimato dos entrevistados por qual motivo? O compromisso do entrevistador — na pesquisa ou no jornalismo — é SEMPRE com a fonte de informação, e não com os agentes que possam se valer dela para produzir dano. Dizer a verdade, revelar o anonimato, muitas vezes, é apenas uma forma de colaborar com os algozes. É esse o defeito enorme do documentário do UOL que eu esperaria que nunca mais se repetisse em nome da comunidade LGBT.

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