Entre batuques e gingados: O empoderamento feminino por meio da percussão

créditos: facebook.com/corodepau/

Ao escavar troncos de madeiras para transforma-las em instrumentos musicais, encontra-se um bichinho, o coró de pau. Para alguns, é sinônimo de ojeriza, para outros uma fonte de inspiração. O Coró de Pau, uma associação sócio-artístico-cultural, foi criada há 15 anos pelo Mestre Alemão e a Mestre Geovanna de Castro, com o nome em alusão ao inseto.  

A associação possui diversas atividades de formação artística, capacitação profissional e de preservação da cultura popular brasileira. Segundo a jornalista Bárbara Falcão, que além de fazer parte dos projetos, é também assessora da associação, um dos principais objetivos é a popularização da cultura para torna-la acessível. “A forma com que o trabalho é feito é linda e acolhedora. Mesmo sem apoio, aos trancos e barrancos, fazem isso da melhor maneira possível. De fato, eles estão fazendo com que as pessoas tenham acesso à cultura popular”, afirma. 

Entre os projetos da associação está o Coró Mulher, um grupo de percussão feminina com ensaios gratuitos no DCE (Diretório Central dos Estudantes) da Universidade Federal de Goiás. Ao som de batucadas de tamborins, o Coró Mulher abrange diversos ritmos, como o maracatu, folia, baião e ritmos afro brasileiros. Em parceria com seu marido, a presidente do projeto, Geovanna de Castro, percebeu a necessidade de criar atividades voltadas para mulheres. “A gente entendeu que seria interessante se agrupar enquanto mulher e se fortalecer, reafirmando nosso movimento dentro da percussão. O grupo foi crescendo e atualmente temos ensaios duas vezes por semana, nas terças e sextas-feiras. É lindo ver o quanto o nosso projeto tem sido significativo para nós”.  

A estudante de psicologia Fernanda Emrich, de 22 anos, faz parte do Coró Mulher desde janeiro deste ano. Ela conheceu o projeto por indicação em um grupo chamado Indique uma Mana, em que participa no Facebook. Desde então, a estudante sempre vai aos ensaios. “Eu me descobri na percussão. Me ajuda a reforçar quem eu sou e a me elaborar na minha existência. É tipo sagrado para mim, uma sessão de descarrego”, Fernanda afirma aos risos. 

Créditos: facebook.com/corodepau/

O Coró de Mulher, assim como os outros projetos da associação, promove laços entre os membros do grupo, em um exercício empoderador. “Em um dos primeiros encontros do Coró Mulher, as mulheres se apresentaram e muitas choraram falando sobre suas experiências, sobre o porquê de estarem ali. Isso me fez compreender a dimensão do projeto que também não deixa de ser um movimento feminista, embora não se restrinja a isso”, relembra a jornalista Bárbara Falcão. 

Fernanda, sempre esteve em contato com a música. A estudante de psicologia aprendeu sozinha a tocar instrumentos como ukulele, violão, piano e viu no Coró de Pau uma oportunidade para aprender percussão. “Eu sempre gostei muito da sonoridade e do movimento corporal que envolve, aí falei: ‘nossa tá tão fácil assim entrar nesse grupo?’ Porque eu achava que era fechado, mas na verdade é só chegar lá e pegar um instrumento para tocar”, declara Fernanda. Para ela, o processo de inserção aconteceu de forma simples, devido à essa familiaridade com a música. “Foi fluído a minha entrada no Coró, foi um processo muito natural para mim”, diz. 

Mesmo que a pessoa não tenha contato com música, como a Fernanda, ainda assim é possível fazer parte do projeto. “Não existe distinção de nada, qualquer um pode chegar e tocar, não precisa de conhecimento prévio, não precisa ter instrumento e muito menos pagar nada”, afirma Bárbara. Durante as oficinas, é possível aprender a tocar e também saber mais sobre cada ritmo e instrumento. “Se você for uma mulher, é só chegar lá no DCE, escolher algum instrumento que mais se identificar e os ensaios começam. Mesmo se não soube, não tem problema e não precisa ter vergonha também não”, declara Fernanda 

A percussão não trabalha apenas a musicalidade. Segundo as integrantes do grupo, esse é um exercício que uni intelecto e o corpo como um todo. “Ela envolve tudo, a sua concentração, a sua coordenação motora e a sua movimentação corporal também, porque a dança facilita muito na hora de tocar”, explica Geovanna de Castro. Para Fernanda, essa é a prova de que mente e corpo não se separam. “Se não trabalharem juntos, não funciona”, afirma a estudante. 

A maioria dos instrumentos são pesados, como os tambores e alfaias, sendo assim, os ensaios acabam sendo intensos. “É uma atividade física muito foda, que trabalha muito o corpo”, diz Fernanda.  Por esse motivo, esta atividade sempre esteve muito ligada ao universo masculino. “Grupos de percussão masculino são mais comuns. No movimento de cultura e nesse caso, de cultura popular, as mulheres muitas vezes acabam se tornando coadjuvantes, enquanto os homens são maioria”, relata Geovanna. 

Para Bárbara Falcão, projetos como o Coró Mulher trazem uma nova visão sobre o lugar da mulher. “Desmistifica aquela imagem de que o tambor é um instrumento prioritariamente masculino. Movimentos como esse são também fruto do momento que estamos vivendo, dessa tomada de consciência por parte das mulheres de que podemos ocupar o lugar que quisermos ocupar”, declara. Além disso, para ela essa atividade é um momento de catarse. “Liberta do cotidiano, é um momento de fuga, quase meditativo, em que a gente coloca no instrumento todo o stress, toda a frustração, o peso do dia-a-dia e tira isso de dentro da gente”, afirma. 

Nesse contexto, as mulheres provam que também são capazes de boas batucadas e de produzirem sons envolventes. Unindo forças em uma forma de afirmação feminina, o Coró Mulher torna-se uma comunidade em que uma abraça a outra, desmistificando a ideia enraizada na sociedade de que deve haver rivalidade entre as mulheres. “É minha terapia, conviver com as meninas que são ótimas. Gosto muito delas e gosto de me sentir parte de um grupo”, diz Fernanda Emrich. 

Créditos: www.facebook.com/corodepau/

Se interessou pelo Coró Mulher? Ficou curioso para saber mais sobre o Coró de Pau e conhecer outras ações e projetos? Dê uma olhadinha nas redes sociais e também no site da associação: 

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https://corodepau.com/ 

Juliana Camargo
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Jornalista, escorpiana, feminista, filósofa de bar e expert em assuntos aleatórios e sem nexo.

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