Eu não conheço o Sabotinha

Sabotinha, pseudônimo de Kaique Liberato de Melo, 17 anos, foi levado de casa, no Colina de Homero, em Aparecida de Goiânia, no último dia 22/11 por três homens, de nomes ainda desconhecidos, que se identificaram como policiais e estariam em busca de armas e drogas. Segundo o irmão do jovem desaparecido, após não encontrarem nada que os incriminassem, os mesmos alegaram ter um mandato de busca e apreensão. E desde então não há notícias sobre o paradeiro de Sabotinha.

Sabotinha é conhecido dentro do Rap por ser MC e uma das promessas goianas no mundo das rimas, colecionando alguns títulos pela cidade.

O caso gerou uma grande comoção dentro do movimento Hip-Hop, movimento negro, e outros, que organizaram manifestos nas ruas e na internet buscando por informações que levassem a seu paradeiro.

Sendo um frequentador assíduo das batalhas de rimas (provavelmente já assisti pelo menos uma em cada região de Goiânia nos últimos anos, perdendo a conta de quantas já prestigiei no total), seja como espectador, seja na minha função de MC em alguns eventos em que fiz alguns shows, parei pra pensar se eu já conhecia o Sabotinha, ou já o vi batalhando e concluí que nunca o vi ao vivo, apenas em videos de batalhas em canais de produtoras de eventos, mas já havia ouvido uma de suas músicas gravadas. Confesso que na época não havia me chamado muita atenção, talvez por esse velho costume que temos de só consumir o que é de fora ou de esperar sempre por padrões fonográficos impostos por artistas que já possuem renome e acabam fazendo com que desprezemos artistas que estão começando e ainda não tem à seu alcance uma grande estrutura ou recursos financeiros para investir em qualidade de áudio, videoclipes, fotos, e essas coisas que fazem com que prestemos mais atenção a imagem que a música apresenta do que no conteúdo que a compõe. A música em questão era essa, caso tenham interesse em conhecer:

 

Sabotinha – Oração

 

Outro dia, voltando de um trabalho que participei com outros MC’s, estava conversando com a MC Inà sobre o Sabotinha e ela me contou algumas passagens sobre sua primeira batalha contra ele e outras oportunidades em que se encontraram em outros eventos. Não me lembro agora exatamente as palavras que ela me disse, mas lembro que ela me falou sobre sentir uma energia diferente naquele momento “olho-no-olho” que os duelos trazem, de sentir que foi a outro lugar e voltou. Como ela me disse, era como se, naqueles 40 segundos, fosse possível conhecer bem a pessoa na sua frente, saber das suas frustrações, seus medos, suas inseguranças. Pensei o quanto era curioso o fato de sentir tanta afinidade em um primeiro contato, exatamente o que senti quando surgiram as primeiras notícias sobre o desaparecimento de alguém comum aos ambientes que costumo frequentar. Mesmo sem conhecer nada sobre a vida do Kaíque, me pareceu sermos mais próximos do que de fato éramos. Talvez porque essas são características comuns à nós, jovens, pretos e de origem periférica.

No resto do caminho pra casa, que fiz sozinho, novamente aquela pergunta me voltou à cabeça: Eu conheço o Sabotinha?

Sim, eu conheço o Sabotinha, mesmo nunca o tendo visto na vida, porque o Sabotinha é meu primo preso, são os MC’s pretos que estão dando a vida no que eles acreditam, sonhando em poder viver do que gostam de fazer, mas talvez mal tenham o que comer em casa, que tem medo da polícia que nos mata simplesmente por sermos o que somos: PRETOS. Como se houvesse pecado nisso. Como não houvesse beleza nisso. O Sabotinha é o moleque que sai pro rolê sem saber se vai voltar pra casa. O Sabotinha sou, pelos mesmos motivos já citados.

Só então eu vi o motivo de sentir tanta afinidade por alguém que eu sequer conhecia. Porque só nos comovemos quando acontece conosco, e dessa vez eu me senti atingido diretamente, então era como se fosse comigo. Mas pára pra pensar: quantos jovens desapareceram naquela mesma semana do dia 22/11? Quantos tinham exatamente as mesmas características que o Sabotinha? Quantos deles não tiveram de mim a mesma comoção, não tiveram suas fotos compartilhadas no meu feed do Facebook, não foram tema de algum artigo meu nesse portal?

Segundo estudo desenvolvido pelo Instituto de Pesquisa Econômica aplicada (IPEA) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FPSP), o Brasil chegou à marca de 59.627 homicídios em 2014, recorde de homicídios em um único ano. Segundo a pesquisa, jovens negros e de baixa escolaridade representam o grupo mais vulnerável. O estudo também mostra que aos 21 anos, a chances de jovens pretos e pardos morrem por homicídio são 147% maiores do que jovens de de outras etnias. O Atlas da Violência denuncia que entre 2004 e 2014 houve um crescimento de 18,2% de homicídios contra negros e uma redução de 14,6% de pessoas não pretas ou pardas, segundo artigo publicado pelo O Globo.

Falar de violência contra a população preta é necessário e urgente.

Exigimos a aparição do Sabotinha com vida.

#vidasnegrasimportam

Fonte:
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O Globo

Athualpa
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Athualpa "A.Jay A.Jhota" Magalhães Jr. é estudante de turismo, ex centro-avente da escolinha do Flamengo aos 17 anos, preto, rapper e amante da cultura Hip-Hop.

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