Fabiana Cozza e o destino do colorismo (Artigo de Rainer Gonçalves Sousa)

Semana passada, um dos maiores fenômenos do século XXI resolveu novamente dar as caras: a militância virtual. Dessa vez, a vítima foi a cantora Fabiana Cozza, que havia sido escalada para representar ninguém menos que Dona Ivone Lara no teatro. O projeto em questão era um musical que tematizaria a vida da recém-falecida artista que, sem dúvida alguma, foi uma das melhores vozes e mentes que passaram pela história do samba.

Sob o ponto de vista técnico, a escolha era potencialmente irrepreensível. Fabiana Cozza tem a capacidade vocal e o currículo que se adequariam perfeitamente à proposta. Contudo, todavia, e entretanto, a referida artista foi alvo de uma série de críticas por aceitar o desafio. A justificativa? Fabiana não seria negra o suficiente para representar Dona Ivone Lara e, por isso, ela mesmo deveria abrir mão do trabalho que conseguiu.

 

Dona Ivone Lara e Fabiana Cozza (Fonte: Mundo Negro)

A questão de fundo desse tipo de crítica tem a ver com um conceito que é muito caro e importante no universo da militância negra. No caso, tal escolha seria interpretada como uma manifestação do chamado “colorismo”. Em linhas gerais, o colorismo se refere ao fato de que negros de pele mais clara e, segundo determinados padrões racistas, que tenham traços “mais suaves” possuam mais chances e oportunidades do que outros negros de pele mais escura e que possuam traços considerados “mais fortes”.

De fato, o conceito faz sentido e prova sua validade em uma infinidade de situações que povoam o cenário artístico brasileiro. Contudo, se o colorismo é um problema real, quem cabe ser questionado nesse tipo debate? Se o colorismo promove a interdição de vários negros que são competentes para o exercício de seus saberes, como operam os mecanismos que estabelecem esse tipo de injustiça?

Apesar de caberem em um mesmo parágrafo, essas são perguntas de difícil resposta. E por serem perguntas difíceis, demandam um tempo de leitura e reflexão que está muito distante do ritmo frenético e mesquinho com o qual opera parte da nossa famigerada militância virtual. É importante rememorar aqui que a militância virtual séria consegue muita coisa importante. Quantas foram as hashtags que promoveram a emergência de debates que precisavam e ainda precisam ser fetios, não é mesmo?

No entanto, quando feita de qualquer modo, a mesma militância virtual consegue se reduzir a uma corrida maluca, onde um monte de gente carente e de ego inflado sai correndo para frente do computador para ver que faz “o lacre mais bonito da semana”. Não bastando isso, quando a militância se converte em lacração, abre-se uma fabriqueta de memes que só serve para desonestamente achincalhar o trabalho abnegado e paciente de uma série de pessoas que dedicam uma vida inteira às suas causas.

Nessa hora, o Tiozão do Zap, defensor da democracia racial, vibra de emoção.

Atravessada a montanha de lacres, é então que se descobrem as pequenas verdades incomodas a quem acha que conceito é receita de bolo e militância é palco de autopromoção. O produtor do musical é Jô Santana, que havia feito um outro musical sobre Cartola e contou com a participação de Flavio Bauraqui que, segundo o próprio site do espetáculo, “liderou uma verdadeira abertura para o protagonismo de atores negros no cinema nacional”.

 


Jô Santana, Adriana Lessa, Flávio Bauraqui e Virgínia Rosalegenda (Foto: Bruno Lemos)

 

Por outro lado, a família da própria Dona Ivone Lara lamentou todo o ocorrido. André Lara, neto de Dona Ivone, se manifestou de forma completamente contrária ao conteúdo das críticas. Mais do que isso, ele revelou em entrevista que Fabiana e Dona Ivone possuíam uma amizade de décadas e que, não bastando isso, afirmou que a cantora tinha amplo conhecimento do legado musical deixado pela sua vó.

Por último e, não menos importante, a própria Fabiana Cozza realizou os dois gestos mais difíceis e inteligentes em toda essa história. Em primeiro lugar, tomada de inconteste coragem, ela decidiu abrir mão da oportunidade que havia conseguido. E, por fim, escreveu uma carta belíssima e carregada de signos que só era possível sair da mente de alguém que é muito sensível e efetivamente sabe o que é ser negro num país como o Brasil.

Ao meu ver, ela acaba transformando em questão o próprio do título desse texto: Afinal, a quem se destina o colorismo?

 

(Rainer Gonçalves Sousa é Mestre em História, Professor do IFG/Campus Goiânia)

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