Força feminina: um outro lado da torcida organizada em Goiânia que ninguém fala

Brigas, drogas, mortes e uma coleção de histórias ruins pautam as mídias quando o assunto é Torcida Organizada. O que ninguém vê é que os torcedores se organizam e não é atoa. Além do amor conjunto pelo clube, há neles uma força resistente, de consciência coletiva e de luta. Mas isso ninguém fala.

Enquanto tantas mulheres diziam que lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive no futebol, um show de machismo é apresentado dentro e fora dos estádios. O último exemplo disso que bombou na mídia goiana foi o caso da entrevista na emissora TV Goiânia Band com a torcedora e recém-eleita musa do Goiás Karol Barbosa, que foi surpreendida – ao vivo – com perguntas de cunho sexual e malicioso. A mulher foi exposta a perguntas como “Se seu nutricionista mandar você chupar uma laranja por que faz muito bem para a saúde, você chuparia um saco por dia?”, “Você é uma musa aberta às colocações dos outros? Ou então “Em um clássico contra o Vila, se o juiz põe pra fora, você mete a boca?”.

Acabar com o assédio, a violência e preconceito contra a mulheres no futebol foram motivos suficientes para que mulheres torcedoras se unissem em busca de respeito. Mas esse lado da torcida organizada também ninguém fala. Não até agora!

Essa Força Feminina

Em 2017, torcedoras goianas resolveram se unir e conquistar um espaço justo na arquibancada, torcendo com liberdade e respeito. E há exatamente 1 ano (8 de março de 2017) nasceu o Movimento Feminino Força Jovem Goiás, a primeira torcida organizada oficial só de mulheres em Goiás dentro da torcida esmeraldina. Com pouco mais de 200 associadas, o movimento veio pra aumentar a presença de mulheres nos estádios, quebrar o tabu de que torcidas organizadas é só violência e combater o assédio e preconceito que mulheres sofrem dentro e fora dos estádios.

O Movimento Feminino surgiu em 8 de março de 2017 quando algumas mulheres da Força Jovem foram convidadas a participar do primeiro Encontro Nacional de Mulheres de Arquibancada, que aconteceu no Museu do Pacaembu, em São Paulo. O convite veio de membros diretores da Anatorg, que a é a Associação Nacional de Torcidas Organizadas, comprometida com um trabalho de conscientização para levar cada vez mais paz aos estádios de futebol no Brasil. A ideia de unir as mulheres torcedores esmeraldinas veio daí, dessa vontade de conscientizar os torcedores e a sociedade.

“Antes, quando tinha algum movimento de mulheres torcedoras, era realizado por um grupo fechado. Quando resolvemos criar o movimento feminino dentro da torcida organizada, a pergunta foi por onde começar? decidimos começar de fora para dentro, convidamos mulheres a participarem da festa da torcida, a conhecer um outro lado da torcida que não conhecia, pois muitas tinham medo, preconceito, entre outros motivos”, disse Larrane Félix, coordenadora do Movimento Feminino e membro da torcida organizada há 9 anos.

Essa união feminina mostra resistência. As torcedoras dizem ainda sofrer vários preconceitos dentro e fora da torcida organizada. “O que vocês estão querendo inventar? Vocês começaram de novo essa palhaçada? Mulher não tem o que fazer. Não vai dar certo, nunca deu certo mesmo…” dizem por aí. Para que o movimento pudesse se fortalecer, a primeira exigência do Movimento Feminino foi RESPEITO.

“Estamos todos unidos pela nossa torcida, pelo amor ao time, mas também temos que mostrar a que viemos. Se antes um movimento feminino na torcida não deu certo é porque não houve respeito ao mantro, não houve respeito entre nós torcedoras e nem por aquilo que estávamos fazendo”. Agora o movimento feminino voltou, está aí e vai fazer acontecer!

A Vontade de Ajudar O Próximo

Uma das iniciativas do Movimento Feminino foi levar para dentro da torcida organizada a vontade de ajudar quem precisa. Assim, ampliaram a agenda de compromissos da própria torcida organizada em projetos sociais para ajudar famílias carentes, crianças, idosos e pessoas em situação de risco.

A primeira grande ação social promovida pelas mulheres da torcida organizada foi durante a Páscoa em 2017, em que foram arrecadados vários alimentos e doces para a alegria da Associação dos Idosos, no setor Balneário Meia Ponte, região Norte da capital. Conseguiram reunir outros grupos de mulheres torcedoras como as Princesas Esmeraldinas (mais de 75 mil seguidores no Instagram @princesasesmeraldinas), musas do Goiás como a Andressa Borges (musa em 2016) e outros grupos femininos de torcedoras em Goiânia. Pra surpresa de todos, bateram record de arrecadação dentro da torcida organizada.

“Quando tem uma pessoa precisando, não importa em que região de Goiânia, todas as meninas se reúnem e conseguem grandes arrecadações”, conta Larrane.

 

Outra grande movimentação da torcida organizada feminina foi em dezembro do ano passado, quando puderam fazer uma ação social com as crianças do Araújo Jorge. Foi a maior ação social da torcida organizada no Estado e a maior ação social promovida na parte de pediatria do hospital. A iniciativa fortaleceu ainda mais a união das mulheres esmeraldinas e de toda a torcida.

Em 2018, o Movimento Feminino vai mostrar a que veio e já conta com uma agenda fechada de projetos e ações sociais, tanto na arquibancada quanto fora. Entre as programações, estão as parcerias, o movimento já tem programação no Araújo Jorge, Hemocentro, associações e comunidades da periferia de todas as regiões, além de uma festa oficial das mulheres esmeraldinas para comemorar esse importante conquista no futebol goiano.

Seminário Feminino Quebrando o Tabu

No Brasil, pouquíssimas torcidas organizadas dão espaço para mulheres debater, torcer junto nos estádios, festejar. Isso não é exagero! Em outros Estados, os torcedores homens decidem se algumas mulheres podem ou não ir assistir aos jogos. Parece piada em pleno século 21, mas essas são as regras definidas dentro de torcidas organizadas.

Este tipo de pensamento levou as torcedoras goianas a criarem um seminário para debater o papel da mulher na torcida e a violência contra a mulher. Para além disso, o debate elevou a torcida organizada a um outro patamar muito mais positivo. Reuniu mais de 150 mulheres na Assembleia Legislativa e contou com o depoimento de antigas torcedoras da Força Jovem. O seminário agora acontecerá anualmente.

Torcedoras Antigas Resistem 

Ludilene de Oliveira Carvalho entrou na Força Jovem em 1999. Na época, não tinha muitas mulheres frequentando estádios e muito menos em torcida organizada. Como torcedora e mulher, sofria preconceito tanto na rua quanto em casa quando vestia a camisa da torcida organizada. Mas nem casamento tampouco a maternidade afastou Ludilene das arquibancadas. Casada há 19 anos, conheceu o marido na torcida e com ele teve 4 filhos também torcedores fanáticos, uma família esmeraldina!

Ludilene, torcedoras da Força Jovem há 19 anos e sua filha mais velha.

“Até hoje vou assistir os jogos com a torcida organizada e levo meus filhos. E precisávamos de um movimento como este pra trazer pra dentro da torcida muito mais mulheres do que já temos. Também mostrar para as pessoas que torcida organizada não é só coisa ruim. Precisa de mais respeito, tenho certeza que muitas pessoas estão ali porque amam o time e vai para o estádio torcer. Mas o que está por vir vai mudar muita coisa. Entre mulheres, temos que confiar uma na outra”, disse Ludilene.

Tia Fia, A Maior Referência Para a Torcida

Só podia ser mesmo uma Mulher a maior referência da torcida. A Tia Fia é uma senhora muito amável, torcedora fanática do Goiás e idolatrada pela a torcida esmeraldina inteira. Ela é a torcedora mais antiga do clube, com 69 anos bem vividos e torcedora desde os anos 70, quando a torcida organizada ainda era a Inferno Verde.

Na época, não existiam mulheres na torcida organizada e Tia Fia ficava ali junto, torcendo com os caras. Tempos depois se filou à torcida quando era Força Jovem, sendo a membra de nº 10. “Através de mim, muitas mulheres começaram a ir pro estádio e isso me gratifica muito”, diz.

Querida por todos, dona Jodelmi Cardoso Sobrinho (verdadeiro nome da Tia Fia), foi criada na roça, era analfabeta e tem uma história engraçada de amor pelo time do Goiás. “Toda vida gostei muito de verde”, conta ela o primeiro motivo que a tornou uma mulher esmeraldina. Mas sua história de luta e resistência como torcedora vai além. Tia Fia casou-se e foi mãe muita nova, fez o que pode para driblar a cultura machista em nome do seu amor pelo clube.

“Meu marido desaparecia nos finais de semana e eu ficava sozinha dentro de casa. Eu tinha um rádio e por acaso ouvi um programa de esporte. A primeira vez que eu ouvi, estava jogando Atlético e Vila Nova. O narrador falou a cor dos uniformes, e eu nunca gostei de vermelho e nem de preto. No outro domingo jogou Goiás e Vila. Quando o locutor falou a cor do uniforme do Goiás, pensei que deveria ser a coisa mais linda do mundo. ‘É esse’, pensei”, conta ela com um bom humor contagiante.

Nesse jogo, Tia Fia conta que Goiás ganhou de 3 a 0, placar favorável para que ela virasse definitivamente uma torcedora esmeraldina de coração. Daí em diante não sossegou para ver de perto um jogo no Serra dourada. “Demorei 2 anos pra ir no estádio porque meu ex-marido não me levava, não me dava dinheiro pra ir e não deixava eu ir. E já tinha 2 crianças e pra conseguir ganhar meu próprio dinheiro, mesmo dentro de casa, pedi ao meu marido na época uma máquina de costura de presente para bordados”, conta Tia Fia sobre como driblou o machismo em casa e juntou dinheiro pra torcer de perto. E foi no campeonato goiano de 1972 que ela pegou as economias e com seus filhos foi ver um clássico Goiás x Vila Nova.

“Nunca mais larguei de ir pro Serra Dourada, ia sozinha mesmo. Aqui em Goiânia vou em todos os jogos”. Tia Fia também viaja com a torcida organizada. Já foi pra Belo Horizonte, Santos, Curitiba, Campinas-SP, já viu Goiás e Flamengo no Maracanã e já esteve em São Januário 3 vezes… Mais torcedora que muitos!

Tia Fia lembra que já foi chamada de sapatão só porque gostava de futebol. Na sua rua, as mulheres casadas não podiam ter amizade com Tia Fia porque os maridos não deixavam. Mas ela nunca deu moral. A família também achava um absurdo. “Minha família é meio esparramada e quando eles vinham pra minha casa me visitar, dava a hora de eu ir pro estádio, eu falava ‘gente a casa é de vocês, fiquem a vontade’ e vazava. Isso pra eles era a morte. E eu só vou largar de ir por estádio o dia que eu não der conta mais de subir aquelas escadas”, afirma a torcedora esmeraldina mais antiga.

Para Tia Fia, toda mulher deve ser feliz pra sempre, não importa sua paixão. “A mulher tem uma força que ninguém tem e ainda tem muito espaço pra conquistar. Acho bonito e justo o que o Movimento Feminino vem fazendo. Uma pena que a mídia é omissa e só gosta de coisa ruim, mas eu creio que chegaremos lá!”.

Agradecimentos especiais aos amigos torcedores do Goiás que me incentivaram a vivenciar a experiência de assistir um jogo no estádio junto com a torcida organizada. Agradecimento a diretoria da Força Jovem que confiou no meu trabalho e permitiu essa entrevista na sede da torcida. E às mulheres do Movimento Feminino, toda a minha torcida para essa inciativa. #RespeitaAsMina 

Larrane Félix, coordenadora do MOVIMENTO FEMININO FORÇA JOVEM GOIÁS e membro da torcida organizada há 9 anos.
Ravele, membro da Força Jovem. “Na nossa torcida, a gente tem muito apoio com o movimento feminino”.

Tia Fia, torcedora desde os anos 70. Vai em todos os jogos do Goiás na capital.

Adriana criou a página Princesas Esmeraldinas para mostrar as mulheres no estádio.

 

Fotos: Divulgação #GNDD

Mariana Magalhaes
About Mariana Magalhaes 38 Articles
Jornalista por formação, especialista em Mídia, Informação e Cultura.

Be the first to comment

Leave a Reply

Seu e-mail não será publicado.


*