Froid: O Sol saiu pra quem tem crédito

Desde o lançamento de o “O Pior Disco do Ano“, do rapper brasiliense Froid, no dia 22 de dezembro de 2017 pela gravadora Novo Egito, o artista tem feito muito barulho nos fones de ouvido pelo país com títulos já consagrados como “SK8 do Matheus“, “Fran’s Café“, entre outros.

Tenho ouvido o disco desde então, ou, pelo menos, alguns de seus fragmentos, mas atualmente não é todo o disco ou as principais músicas que tem me chamado atenção.

Nas últimas semanas uma frase da última track do álbum, “Chuva“, grudou em minha cabeça e me trouxe uma série de reflexões: “O Sol saiu pra quem tem crédito, não pra tu”.

Para início de conversa, é importante dizer que esse não é um texto sobre “O pior disco do ano”, muito menos um “faixa-a-faixa”, mas uma reflexão muito além do trabalho do Froid. Então se você chegou até aqui esperando qualquer coisa do tipo, sinto te desapontar, mas espero que continue até o final para refletirmos juntos.

Também acho importante dizer que o disco contraria totalmente o seu título e não é só um dos melhores de 2017, mas um dos melhores álbuns dos últimos anos do Rap brasileiro. Então recomendo que escutem e, ainda, deixo aqui o link para faixa que deu origem a esse texto:

 

Froid – Chuva

O engraçado sobre essa música é que ela não me fez refletir tanto sobre a obra por completo, mas sobre essa frase especificamente. Obviamente, dentro da música ela segue uma linha de raciocínio e tem algum significado específico e baseado em preceitos pessoais dentro do conceito geral de toda a letra.

Segundo a descrição no site Genius, “O verso se refere ao fato de que os participantes da elite, conseguem ser livres mesmo tendo feito crimes ou alguma ação imoral.[…]”. a explicação pode ter sido feita por um ouvinte colaborador e pode ou não refletir a ideia do autor (Froid).

Se colocada avulsa, fora da obra original, essa frase pode ter uma infinidade de significados para cada pessoa que a ler. Isso é o legal das palavras. Poder ter diferentes formatos para cada um que a encontra. Claro que pode ser perigoso pegar trechos desconexos e dar a ela um no significado, correndo o risco de destorcer as palavras de quem as escreveu, mas nesse caso acredito ser uma reflexão saudável.

E é assim que sempre penso nessa frase quando a ouço: como se ela tivesse nascido sozinha.

E qual o seu significado para mim?

Pra mim, como ouvinte, é impossível não pensar no mercado da música, e mais especificamente, do Rap. O Sol realmente nasceu pra todos quando falamos em mercado fonográfico ou ele nasceu pra quem tem crédito, capital, dinheiro?

Vamos pensar no que seria necessário obter sucesso no mundo da música, independente do estilo musical, que poder ser Rock, Funk, Pop, Pop, Reggae, Rap, etc, baseado nos padrões de música atuais. Na teoria, para chegar aos ouvintes, é preciso criar um conteúdo que seja atrativo ao público com um mínimo de qualidade de áudio, bons videoclipes ou trabalhos em vídeo em geral, boas fotos, edição de imagem, designe gráfico, dentre outros.

E quanto custa esse investimento?

Já que começamos falando de um ícone do Hip-Hop, vamos colocar em números baseados no mercado e valores fictícios aproximados aos reais qual o valor mínimo para apresentar um trabalho com a qualidade que o mercado do Rap exige:

Beat/Instrumental: em média R$ 150,00.
Captação de voz, mixagem e masterização: R$ 150,00 a R$ 200,00 (em estúdios de Rap).
Videoclipe (Produção e pós-produção): R$ 2000,00 para produções mais completas e em média R$ 400,00 para produções básicas.
Sessão de fotos: R$ 200,00.
Trabalho gráfico: R$ 200,00.

Valores bem altos para artistas iniciantes e que geralmente não conseguem fazer dinheiro com música para poder reinvestir na própria arte. Então, como seria se investíssemos nosso dinheiro na aquisição de equipamentos para home studio? Vamos ver alguns valores baseados na minha própria experiência.

Para a montagem de um estúdio caseiro, as possibilidades são infinitas, mas há alguns itens básicos que não podem faltar. São eles:

Microfone condensador Behringer B1: R$ 750,00.
Interface de áudio Fast Track (2 canais): R$ 800,00.
Fones de ouvido: R$ 150,00.
Notebook com processador CORE i3: R$ 1500,00.
Pedestal para microfone: R$ 80,00.
Cabo para microfone Canon/Canon: R$ 60,00
Pop filter: R$ 150,00.

Total: R$ 3490,00.

Valores baixos se pensarmos na estrutura dos estúdios profissionais, mas muito altos para artistas que não dispõem de todo esse dinheiro para investir. E, ainda, esses equipamentos citados são considerados amadores, longe da qualidade ideal para se obter uma produção de qualidade se não aliados um bom tratamento acústico do ambiente utilizado para as gravações.

Outro fator que os artistas iniciantes não costumam considerar em um primeiro momento, é que de nada valem todos esses aparelhos sem o mínimo conhecimento sobre áudio e de produção musical. O ideal seria passar por vastos cursos de engenharia de áudio a fim de adquirir conhecimentos sobre mixagem e masterização ou mesmo sobre como se obter a melhor qualidade de capitação de áudio. Conhecimentos que sim, podem vir com o auxílio da internet, pois, como sabemos, existem um série de canais no YouTube com vídeo aulas muitos boas e outras nem tanto, mas não é o meio ideal, o que pode aumentar muito o caminho até o domínio sobre áudio necessário para produzir músicas de forma profissional na sua própria casa.

Assim, o Sol, ou o mundo da música, não nasceu pra todos, mas pra quem tem o mínimo de tempo e dinheiro para investir, o que derruba a teoria de que pra obter sucesso é só ter talento, trabalhar e acreditar que o resultado vêm. Pessoas de classes econômicas mais abastadas sempre estarão em vantagem por terem acesso mais fácil a todas essas possibilidades.

O fato de um artista obter destaque não quer dizer que ele trabalhou mais ou melhor do que o outro, mas que ele teve mais possibilidades do que os outros que não conseguiram tanto sucesso. Não dá pra justificar sucesso partindo de meritocracia, nem no mundo das artes. Todos esses fatores devem ser considerados. Claro, é possível obter destaque só com talento, sem dispor de tantos recursos, sem ter músicas gravadas, sem videoclipes, o que é o caso do consagrado MC Marechal, por exemplo, mas essa não é a regra nos tempos atuais, é a exceção.

Um músico precisa ser visto e ouvido e seu cartão de visita é a sua música. Logo, quanto mais profissional o seu trabalho, maior a possibilidade de sucesso. E sucesso custa dinheiro.

Athualpa
About Athualpa 15 Articles
Athualpa "A.Jay A.Jhota" Magalhães Jr. é estudante de turismo, ex centro-avente da escolinha do Flamengo aos 17 anos, preto, rapper e amante da cultura Hip-Hop.

1 Comentário

  1. Acho que na parte “O Sol saiu pra quem tem crédito, não pra tu. Deitado eternamente em berço esplêndido.”

    Ele tenta dizer que as pessoas que batalharam possuem crédito e foram contempladas dessa vez. E não o Rico e tem dinheiro, mas quem batalhou.

Leave a Reply

Seu e-mail não será publicado.


*