Histórias anfêmeras: amores, papos e subversão #1

A atração por alguém pode surgir nas situações e lugares mais inesperados e improváveis. Quando menos se espera, ali do lado pode estar o amor da sua vida ou ao menos uma paixãozinha despretensiosa. Eu mesma, vivo encontrando amores nos ônibus, que duram até o meu ponto de desembarque. Esse aliás, é um lugar propício às “crushadas”. A imensidão de gente no transporte coletivo pode ser o lugar perfeito para encontrar um par. Mas desta vez, não foi meu coração que disparou por alguém. Pelo menos, não de forma romântica.

Era tarde de sábado e o ônibus estava relativamente cheio e os terminais surpreendentemente movimentados, com vendedores ambulantes, pessoas transitando e homens fardados. Ao meu lado, dentro do coletivo, havia uma mulher. Ela carregava refrigerante e latinhas de cerveja na sacola plástica transparente. Posicionada em frente à porta, estava de cara com um rapaz que lhe lançava olhares desde que entrara no ônibus. Ela retribuía com um sorriso tímido no canto da boca.

Em uma das estações de parada, o clima de flerte foi interrompido por um grito. Da janela se via o vulto do cassetete estralar nas costas de um homem. Não se sabe quem era a pessoa ou o motivo da abordagem. Mas, através do vidro do ônibus, ninguém havia testemunhado resistência ou reação contra a PM. Então, o ato de opressão e abuso de poder foi logo questionado pelos usuários do transporte coletivo.

Foi então que o bate-boca começou. Com a cabeça de fora, algumas pessoas gritavam: “Covarde! Covarde!”. A mulher era a que mais vigorosamente engrossava o coro. O rapaz que lhe encarava minutos antes, também estava com as atenções voltadas para a ação policial. Nesse momento, acho que eles perceberam que tinham algo em comum: a inquietude diante de tamanha violência.

O ônibus teve que seguir viagem e, por mais estranho que pareça, toda aquela situação adversa os aproximou. Eles passaram o restante da viagem conversando e ao chegar no desembarque, trocaram os números de telefone. Antes que fossem embora, marcaram de sair ainda aquela noite e com beijos no rosto se despediram. “Até mais tarde”, disseram. Não sei ao certo se eles realmente se encontraram e se dalí surgiria mais um casal. Também não sei o desfecho do rapaz agredido. O que sei, é ninguém está imune aos amores repentinos e aparentemente à violência também não, mesmo a institucionalizada.

Juliana Camargo
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Jornalista, escorpiana, feminista, filósofa de bar e expert em assuntos aleatórios e sem nexo. Instagram: @jul.camargo

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