Livro “Das Cores ao Século XXI” resgata a história do rock goiano nos anos 80

Foto: Wilder Barbosa

Em 2015, o músico Jadson Jr. lançou o “Das Cores ao Século XXI: Uma História do Movimento Pós-Punk em Goiânia nos Anos 1980”. A obra conta a história da cena pós-punk na capital em plena década de 80 e é um verdadeiro documental da cultura rock de Goiânia.  Os shows, bandas, bastidores da cena goianiense são cirurgicamente revelados na escrita fácil de Jadson. O livro é um item obrigatório a todos que viveram, vivem ou querem entender e conhecer as peculiaridades do rock que há tempos transgride a capital do sertanejo há algumas décadas.

Para sabermos um pouco mais sobre “Das Cores ao Século XXI: Uma História do Movimento Pós-Punk em Goiânia nos Anos 1980”, convidamos o grande Jadson Jr. para um papo. Confira abaixo: 

G: A gente sabe que em Goiás pouco tem-se a tradição de documentar a história, seja em livros ou outras formas artísticas, ou mesmo de forma mais pragmática mesmo por trabalhos de historiadores e jornalistas. Dito isso, qual foi o fator que te instigou a escrever o livro Das Cores ao Século XXI?

Jadson Júnior: Quando voltei para Goiânia em 2000, eu percebi que havia uma cena forte com bandas fantásticas e shows muito bem produzidos com seus heróis, seus ídolos. Era a época do Garage Café e eu não podia acreditar que havia festivais de 3 noites com 12 bandas por dia. Até 2004, havia shows lotados de público toda semana, quase todo dia. Eu frequentava tudo, eventos da Monstro, eventos punks, metal aos fins de semana nos dois DCEs, eventos de moto clubes, tudo. Dentro dessa efervescência subcultural eu não ouvia ninguém falar da cena post punk do final dos anos 80. Não que eu achasse que as pessoas tinham de falar, é claro que não. As pessoas hoje vivem de internet, de imagens e não de memória. Então, em 2004, eu peguei um caderno e uma caneta e comecei a escrever uma narrativa sobre aquela cena. Não tinha Orkut ainda, muito menos Facebook, não havia como encontrar as pessoas, não havia como conseguir fotos nem imagens em vídeo. Então escrevi o rascunho do que viria a ser o Das Cores Ao Século XXI. Passei o rascunho para o Word e continuei aumentando o conteúdo nos anos seguintes. Em 2009 coloquei-o como e-book de graça na internet e tivemos mais de 20.000 acessos, críticas negativas e positivas.

Quem é da cena se interessa pela história, se interessa pelos ‘véi’, pela velha guarda, nosso livro teve uma repercussão excelente em preencher essa lacuna histórica. Mas a respeito da ‘desconexão com o passado’ eu conversei com um amigo em 2009 e disse a ele que eu queria registrar o livro na Biblioteca Nacional e lançá-lo antes que alguém resolvesse escrever uma ‘História do Rock Goiano’. Meu amigo respondeu que eu não precisava me preocupar porque, segundo ele, “ninguém vai fazer isso”.

G: Massa. Essa época talvez tenha sido o ápice de tudo, né?

Jadson Júnior: O ápice me parece ter sido mais ou menos entre 2000 e 2010 quando qualquer evento por mais tosco que fosse ficava lotado, depois começou uma queda impressionante com shows de metal cancelados por falta de público, hoje até mesmo casas que foram abertas especializadas em rock tem que diversificar para não levar ré, já vi show punk com público zero e festas de rock com público zero.

G: Vc acha que a cultura goiana, ou melhor, o rock goianiense, que é a seara da conversa, tem muita desconexão com o passado? Como vc acabou de dizer, as pessoas não falam do que veio antes, a não ser as que viveram. Porém, não sei se é falha dessas pessoas ou interesse dos mais novos de não buscarem a história.

Jadson Júnior: Quem é da cena se interessa pela história, se interessa pelos ‘véi’, pela velha guarda, nosso livro teve uma repercussão excelente em preencher essa lacuna histórica. Mas a respeito da ‘desconexão com o passado’ eu conversei com um amigo em 2009 e disse a ele que eu queria registrar o livro na Biblioteca Nacional e lançá-lo antes que alguém resolvesse escrever uma ‘História do Rock Goiano’. Meu amigo respondeu que eu não precisava me preocupar porque, segundo ele, “ninguém vai fazer isso”. Então talvez você tenha razão quando disse que ‘Goiás pouco tem-se a tradição de documentar a história’. Outra dificuldade que tive ao escrever o livro foi o desinteresse das pessoas em dar uma simples entrevista, é como se os atores e atrizes dessa história considerassem esse passado como uma bobagem ou tivessem vergonha de ter seus nomes associados à subcultura em Goiás. Agora quem está na cena só pelo oba-oba, só pela balada não se interessa mesmo,esses querem só o hoje, só o agora. Logo logo vão se formar na faculdade, casar, ter filhos e esquecer. Os que se importam são para sempre.

G: Sobre os anos 80, que é a época da qual o livro trata, como era a cena rock em Goiânia? Dá uma pitada aí para a galera saber como eram os primórdios da cena local.

Jadson Júnior: Era totalmente DIY (Do It Yourself) ensaiar na casa da mamãe com equipamento lixo, carregar tudo no braço, os próprios músicos montavam o equipamento. a banda Quarto Mundo em 1986 foi a primeira a ter um roadie que era o Bengala, pai do Chita, daí em diante as bandas passaram a ter roadies, mas todo o trabalho desde o ensaio até o desmonte do equipamento no final do show era feito pelas próprias bandas. Quando havia algo grande organizado por uma rádio FM, por exemplo, a gente subia no palco e fazia o show, mas o cara que ficava na mesa de som não ouvia nossos pedidos de equalização. A gente tinha que tocar sem passagem de som nesses eventos sem controle algum sobre nossa própria música. Esses ‘donos de aparelhagem’ ficavam ofendidos se a gente pedisse eco na voz ou mais agudo na caixa da bateria.

G: Você, que sempre esteve na vanguarda, (blogueirinho raiz hahahaha), que já viveu várias décadas na cena, qual é a que você considera a mais bacana?

Jadson Júnior: Hoje com certeza é mais bacana ou posso dizer que desde 2000 até hoje. Nos anos 90 eu morava em Vitória no Espírito Santo, frequentava a cena hardcore de lá, mas não vivi a cena em Goiânia nos 90.

G: Vc acha que se em Goiânia e no Estado tivesse essa tradição de documentação histórica haveria mais reconhecimento do que é feito aqui? Seu caso talvez seja um exemplo claro disso, vc sentiu essa necessidade e resolveu colocar as mãos à obra.

Jadson Júnior: Não creio, o rock sempre foi underground e não uma moda. A MTV no Brasil começou em 1990 e daí o poder do audiovisual replicou clones de Guns N’ Roses pelo país afora, o sucesso do Sepultura e do Grunge acabou gerando filhotes, mas logo logo esse carnaval acabou e o rock como sempre fica só no underground mesmo. Os políticos de uma maneira geral só reconhecem o sertanejo como música popular, eles olham para o rock de Goiânia como se ainda estivesse no DIY lá dos anos 80. Os verdadeiros rockers não anseiam por reconhecimento, quem quer fazer alguma coisa pela cena faz, no meu caso escrevi o livro, terminei um documentário e estou preparando outro livro, mas acredito que essas ações a que nos propomos documentar vão ter seu valor assegurado no futuro quando já estivermos todos mortos.

G: Para fechar: Caso as pessoas queiram adquirir o livro como devem fazer?

Jadson Júnior: Comigo mesmo, o e-mail é  que pode ser digitado no Facebook e sai no meu perfil. Obrigado pela oportunidade, um abraço.

G: Qual é o valor?

Jadson Júnior: R$ 50,00

G: Quais projetos vc está tocando no momento? 

Jadson Júnior: terminei o documentário Das Cores Ao Século XXI que é o audiovisual do livro e estou escrevendo um novo livro sobre o rock de Goiânia, também resolvi voltar a fazer música, vou cantar e tocar guitarra.

Como adquirir:
“Das Cores ao Século XXI: Uma História do Movimento Pós-Punk em Goiânia nos Anos 1980”
E-mail: jadsonjr@live.com ou no perfil de Jadson no Facebook.
Valor: R$ 50

Vinícius Mesquita
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Um ser errante. Formado em Jornalismo, fã de rock 'n' roll e viciado em futebol. A loucura é a única forma de permanecer-se são.

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