“Lupe de Lupe” lança uma música com cinco anos de idade (Artigo de Rainer Gonçalves Sousa

Na última quinta-feira, a banda mineira “Lupe de Lupe” lançou a canção “O Brasil quer mais”. Uma canção que conta com quase nove minutos de duração, três partes (“O julgamento”, “A sentença” e “O sacrifício”) e, em suma, estabelece uma série de críticas duras ao que acontece em nossa história recente. De tão dura a canção, fica quase impossível esquecer que a banda é da mesma terra de onde surgiu nossa maior tragédia futebolística.

Logo de cara, cabe avisar que não se pode esperar ali algum tipo de epifania ou adesão a determinada perspectiva que incite o aplauso maciço de algum dos nichos que retroalimentam a polarização do debate público atual. Para isso, sugiro canções recentes do Criolo ou do Chico Buarque, que apesar de me agradarem, sabem muito bem a quem querem vender seus peixes.

Ao invés de um arranjo edulcorado ou algum tipo de solução musical simpática, “O Brasil quer mais” é protagonizada por um vocal desafinado e, em certas alturas, bem irritante. Ao mesmo tempo, a marcação militaresca de uma bateria disputa espaço com uma profusão de dissonâncias e ruídos que vão solenemente te convidando a dar um “pause” e mandar toda essa ideia pro ralo. Isso até pode acontecer, mas a própria letra nos avisa no seu começo que “infelizmente é música violenta e sobre amor”.

Muito infelizmente, a nova canção do “Lupe de Lupe” tece um grande corolário de breves considerações que foram visivelmente estruturadas a partir de junho de 2013 e, goste ou não, de suas grandes jornadas. Em um tempo de esgotamento das políticas progressistas inspiradas nos piores ideólogos da Ditadura Militar, entramos em uma espiral de contradições que força o narrador a apontar para um eterno retorno, já que esse ano “vem mais uma copa, vem mais uma eleição”.

Cravado por um ceticismo agoniante e outras pequenas verdades amargas, abre-se uma caixa de pandora habitada por experiências particulares, pela observação do comportamento das pessoas em redes sociais, pelo desenrolar de grandes escândalos e pelo reconhecimento de outras misérias que justificam sua grande conclusão: “Você me diz que o Brasil quer mais/ Eu digo que o Brasil quer mais é se fuder/ A gente ri, mas por dentro chora/ E não choramos à toa”.

Mesmo que fazendo arte e (de algum modo) vivendo como artista, a canção pensada e produzida pelo vocalista Vitor Brauer e seus colegas escapa das pretensões de arrebatamento que nos remete à certos postulados da canção brasileira da década de 1960. Não há chamamento para algum tipo de luta concreta, pois não há o reconhecimento – no horizonte próximo – de algum tipo de solução para o que se acumulou em nossas costas durante esses últimos cinco anos.

Ao meus ouvidos, me fez lembrar das desilusões também espalhadas, em 1972, por João Bosco e Aldir Blanc em “Agnus Sei”. No reconhecer de seus próprios impasses, a dupla conjugava a percepção pretérita de que combater o autoritarismo pelo campo simbólico poderia ter seu valor, mas não bastava. E, muito provavelmente, por isso cantaram “Só quem tentou sabe como dói/ Vencer satã só com orações(…) o tribunal não recordará/ Dos fugitivos de Shangri-lá/ O tempo vence toda a ilusão”.

Ao fim de tudo, fica a sensação de que “O Brasil quer mais” deseja que essa narrativa difícil de ser escutada, felizmente, não emplaque como trilha sonora das rádios ou de algum protesto futuro. Talvez sabendo disso, felizmente, nos resta a opção de escutar esse palavrório ácido no conforto de nossas casas. A cada sentença em que nos reconhecemos, podemos, no máximo, dimensionar melhor a pequenez de algumas brigas e bandeiras que compramos nos últimos tempos.

Segue abaixo o clip da música:

https://www.youtube.com/watch?v=YdjjvVP4BO8

 

(Rainer Gonçalves Sousa é Mestre em História, Professor do IFG/Campus Goiânia)

Be the first to comment

Leave a Reply

Seu e-mail não será publicado.


*