Malês: uma lição

Pobreza extrema, exploração, aparato policial forte e apontado para a própria a população. Riqueza concentrada na mão de poucos, imposição do cristianismo e imprensa que influência o governo e o judiciário. Poderia ser 2018, mas não. Esse era o quadro em 1835 na Bahia, cenário da Revolta dos Males.

No início do século XIX a população baiana era composta por 858 mil habitantes dentre eles 524 mil eram negros escravizados, sem contar negros e índios alforriados que viviam em condição de escravidão. A miséria, a exploração e as condições desumanas impostas aos negros na província baiana e em todo território nacional foi à química perfeita para explodir inúmeras revoltas.

A situação baiana foi a mais marcante. Uma sucessão de rebeliões negras marcou sua história tendo sido essas responsáveis por mudanças nas leis e nos comportamentos locais. A revolta dos Aussás entre 1807 a 1813 onde 600 negros escravizados marcharam para ocupar a capital; Revolta de Cachoeira em 1814 protagonizada por negros do Recôncavo baiano; 1823 Revolta a Bordo, escravizados revoltados com as condições no navio negreiro organizaram um motim e mataram um grande número de tripulantes; Insurreição de 1830, um motim de grande proporção e a Grande Insurreição ou Revolta dos Malês em janeiro de 1835 não terminando nela.

Preocupados com as Levantes Negros orquestrados, o governo da Bahia ostenta um forte contingente de 23.070 homens mirando letalmente cada negro da província (qualquer semelhança não é mera coincidência). A preocupação com a quantidade de negros era tamanha quem em 1850 o governo proibiu sumariamente a entrada de africanos no Brasil acabando com uma das atividades mais lucrativas: o tráfico de escravos.

Malê era um termo utilizado para designar os negros muçulmanos que sabiam ler e escrever o árabe, no entanto diversos grupos étnicos fizeram parte dessa revolta e esse foi justamente o grande diferencial desse movimento que ficou conhecida como a revolta de maior expressividade histórica. No momento de preparação os africanos faziam contatos entre os mais diversos povos Benin, Cabindas, Congos, Geges, Minas e outros e se encontravam nos mais diversos locais da cidade de Salvador então capital federal, pra debater estratégias e ensinar o árabe para os não alfabetizados.

Algumas características organizacionais fizeram da revolta dos males um movimento bem sucedido. Vários eram os lideres do movimento conspiratório, o que nos leva a crer que não existia um poder centralizado. Mantinham um fundo para a compra das armas e custear as despesas da revolta e uma tática militar muito bem organizada. Para Clóvis Moura existiam dois principais grupos e esses estavam sempre em contato e também mantinham relação intensa com os negros do recôncavo o que demonstra uma capacidade organizativa surpreendente para a época e para as condições de escravidão da maioria dos participantes do movimento.

Os negros avançaram armados em busca de soltar irmãos presos, matar e tomar as terras de brancos e se vingar de pardos traidores. Tendo sido delatados os Malês não desistiram e insurgiram durante a madrugada derrotando a polícia por duas vezes, até serem parados pela tropa da guarda nacional, a polícia e civis em pânico com a possibilidade do sucesso da rebelião negra.

O que se segue daí é um massacre. Dezenas de negros mortos, devastação das casas negras com invasões e destruição e a perda do direito de circular pela cidade, os negros só poderiam sair as ruas fortemente patrulhadas com autorização de seus donos.

Coragem, força, organização, persistência, insubordinação, disciplina e lealdade. A Revolta dos Malês demonstrou ao governo e as elites da época os perigos de manter o regime escravocrata e risco que sempre correram.

Os principais lideres foram mortos em combate!

Os sobreviventes se mantiveram leais aos ideais!

Seus descendentes estão vivos!

Poderia ser 2018. Poderia?

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