MINHA HOMENAGEM AO FREI MARCOS LACERDA (texto de Marcos Carvalho)

O poeta Renato Russo dizia que os bons morrem jovens, mas Frei Marcos envelheceu. Talvez a sede por justiça social encarnada na vocação dominicana o tenham ajudado atravessar quase um século promovendo a paz. Ele nasceu Benedito Larcerda de Camargo, mas em 1956 tomaram-lhe as vestes e com a violência de um parto “macunaímico” nascia o profeta que deixava o nome, sem perder a humanidade profética dos pés descalços, da vaidade silenciada e da simplicidade da ordem vizinha, a franciscana. Nascia ali Frei Marcos Lacerda.

Eu o conheci em 2012, foi Dom Tomás que nos apresentou, numa visita ao Quartel do XX, era inauguração do IFG na Cidade de Goiás. O velho Tomás eu já conhecia, e já achava fascinante, um bispo de mais de 80 anos que pilotava seu aviãozinho levando medicamentos para os índios, andava no meio do povo e não usava trajes faraônicos cheios de pompa e brilho. Era simples no sentido mais valoroso do termo.

Passei a visitar o Frei de barbas longas e sandálias de dedos frequentemente, e a apresentá-lo a toda sorte de amigos que eu levava para conhecer a antiga capital do estado. Era sempre motivo de encantamento contar sua trajetória,  de coragem e enfrentamento, e também aproveitávamos a visita para colher amoras no pátio do Convento do Rosário, que possui um belo pomar ao fundo, com a imagem da Virgem de Guadalupe, parreiras e alguns jabutis. Foi lá que o homenageamos no carnaval de 2017.

Ele dizia que eu gostava mais do Frei Mingas (frade e poeta popular que escolheu viver nas periferias do mundo), eu dizia sempre que era impressão dele, e a gente dava risada e falava de política. Ele me contava do hospital São Pedro, das dificuldades de fazer saúde pública no interior, dos desafios da clínica que hemodiálise que ele estava montando com doações (e montou).  Eu e Salma Saddi comentávamos em nossos encontros sobre a força e generosidade desse homem. As vezes perseguido, incompreendido e avançado.

Frei Marcos faleceu nesse 26 de maio as 18h15 no Hospital Neurológico em Goiânia. Nascido em Montes Claros, ingressou na Escola Apostólica Dominicana na cidade de Santa Cruz do Rio Pardo, SP, em 1944. Segundo relatos da província, fez seu noviciado junto à Ordem Dominicana, no Convento das Perdizes, cidade de São Paulo, em 1949. Entre os anos de 1950 e 1956, cursou Filosofia e Teologia, na cidade de Bolonha, na Itália, foi ordenado padre em 08 de abril de 1956. Em 1957 retornou ao Brasil e fez a seguinte trajetória em sua vida missionária de frade dominicano: Goiânia, Brasília, São Paulo e cidade de Goiás, onde viveu seus últimos 46 anos, tornando-se grande referência de lutador pelas causas dos Direitos Humanos, da Reforma Agrária, da Cultura Popular e da Religião Popular.

Sua mística corajosa, inspirada em Bartolomeu de Las Casas, grande figura do caminho dominicano, percebia na perspectiva da Teologia da Libertação o caminho para a construção de uma sociedade melhor no dia a dia do povo. Em mais seis décadas atuou incansavelmente em defesa das causas as quais abraçou ao optar pela Ordem dos Pregadores, e na definição radical do termo defendeu “caninamente” os preceitos do novo evangelho do cristianismo ocidental, “DOMINI CANUS”

Frei Marcos pertence (no presente e no futuro) a uma leva de religiosos que já não encontramos com tanta frequência, oriundos de uma geração marcada por Frei Mateus Rocha (ex reitor da UnB), Dom Tomás, Dom Celso, Marcos Sassatelli, Celso Carpenedo, estes dois últimos ainda ativos na lida com o povo e na luta por direitos. Frei Betto esteve lá pouco tempo atrás. Um rosário dominicano que alcança Pedro Casaldáliga no Alto Araguaia.

Figura fundante da história e da cultura vilaboense, destacou-se pelo posicionamento progressista no campo político e social, atraindo olhares e rancores das velhas raposas da região, essas, hoje todas caíram no ostracismo do esquecimento. Ele não, ele é memória, afeto, história e vida na mesa do povo dos assentamentos, das comunidades, dos enfermos e da gente que tanto defendeu. Frei Marcos é para sempre!

(Texto de Marcos Carvalho)

 

 

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