Mulheres de pé rachado

Por muitas vezes eu pensei em escrever este texto e por muitas vezes eu adiei. Sempre tive muita vontade de falar desta condição de ter nascido mulher numa terra como Goiás, no meio do cerrado brasileiro, mas as ideias nunca se assentaram por completo e continuam em constante movimento. Portanto, não espero trazer verdades, mas minhas percepções e sentimentos que estão vívidos e, logo, passíveis de mudança, como a impermanência da vida. Atualmente estou no Peru e aqui me deparo todos os dias com a força das cholas, mulheres que vivem nas montanhas e carregam suas colheitas e crias nas costas pelas altitudes. Elas me fizeram lembrar de quem eu sou e de onde eu venho. Tenho inúmeras referências de mulheres “trabalhadêras” na minha história, em especial na minha família. Tenho exemplos de famílias onde a matriarca é uma grande força.

Mulheres flores de maio ou junho, que florescem em plena seca. Mulheres de quintal, que tem um cházinho de uma erva curandeira ao alcance das mãos. Mulheres caipiras, tão simples quanto um cafézinho passado na hora. Mulheres livres, que escolhem sair e fazer o que querem mesmo sabendo que vão escutar um “psiu” enquanto andam pela rua, seja qual hora for.

Mulheres feridas, vítimas da violência pelo simples fato de serem mulheres no 5° estado com mais feminicídios do Brasil. A propósito disso, li uma vez um adesivo numa dessas caminhonetes grandonas que dizia: “OS BRUTOS TAMBÉM AMAM” (sim, estava em caixa alta). É difícil ter de justificar o amor, um sentimento tão natural do ser humano, num lugar onde o lema é ser “bruto, rústico e sistemático”. E aí eu lembro da terra seca e do Sol quente. Lembro das mulheres goianas de pé rachado, que vão incorporando no seu corpo e alma esse modo seco de viver a vida é se adaptar à terra. Talvez foi essa a saída que encontramos diante das condições. Eu tenho impressão que essa secura aumenta ainda mais na cidade com tanto concreto e metal. Pode ser só uma impressão, mas vejo mulheres solitárias. A garganta fica seca também e não consegue compartilhar o que sente de mais profundo, nem com outras mulheres. Eu sei que tenho mulheres com quem contar quando a situação não for favorável, mas o que eu estou falando é de uma rede de mulheres que você possa se jogar sabendo que vai ser amparada em qualquer situação. Mulheres aranhas que constroem uma teia da vida, com direito a alegria, dor, risada e choro.

Mulheres que se apoiem, que tenham bocas, ouvidos e corações, que saibam que não tem problema algum expor suas verdades, nua, completamente nua, sem véus, máscaras ou julgamentos. Mulheres que se amem. Que saibam amar. Que pratiquem o amor. Mulheres que amem a si mesmas. Mulheres que se cuidem primeiro para depois cuidar dos outros. Mulheres chuva, que possam cair como a água sobre a terra e ser simplesmente quem são: sagradas. Que têm o poder da criação, fazendo brotar a vida do chão, do ventre e do coração.

Karol Santos
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Karol, goiana de pé rachado que caminha pelo mundo em busca da construção de uma nova realidade

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