“Nanette” implodiu o humor – artigo de Rainer Gonçalves de Sousa

 

Transitando entre a vida e a arte, “Nanette” se transformou em uma grande sensação (Fonte: veja.com.br)

A mais nova sensação da Netflix não é um seriado ou algum filme produzido pela empresa. O que “temos pra hoje” é “Nanette”: uma performance que nos oferece uma série de questões, indo das lutas identitárias chegando até a importância da arte em nossas vidas. Falando assim, parece que Hannah Gadsby – autora e única artista em cena – resolveu juntar coisas aparentemente desconexas e fazer várias considerações genéricas. Mas não é bem por aí!

Hannah Gadsby é uma famosa humorista australiana que, intimamente ligada ao stand-up comedy, acostumou-se a fazer piadas de viés autodepreciativo. Apesar de nunca ter visto outro show dela, acredito que eles devam ser muito bons. Pois Hannah tem um timming excelente para pausas, entonações exaltadas e aqueles olhares irônicos que geralmente completam boas piadas. De fato, no início de “Nanette” ela faz uso de todos esses artifícios para arrebatar a plateia que a assiste.

Com o passar do tempo, ela cria um certo desacordo com o humor, elencando uma série de fatores que a convenceriam de parar com o stand-up comedy. Entre outras coisas, destaca as absurdas situações que já viveu ao ter que escutar o “feedback” de seu público e o próprio fato dela ser “uma pessoa cansada”. Na medida em que se mostra “cansada” daquilo tudo, Hannah passa a nos expor nenhum interesse em parar com o humor, mas em debater qual o sentido do humor que ela fez até aquele momento.

De forma sutil e inteligente, expõe que o grande problema a ser tratado ali é o tal do “humor autodepreciativo”. No caso dela, a autodepreciação perpassa por três características fundamentais: o fato de ser mulher, o fato de ser gorda e o fato de ser lésbica. Por meio desses três elementos, ela defende a ideia de que o humor de autodepreciação possui graves limitações, chegando ao ponto de ser um modo pelo qual muita gente “aceitou” que determinadas minorias conquistassem espaço no próprio meio artístico.

Nessa hora, é impossível não rememorar os vários humoristas brasileiros que se notabilizaram com a mesma estratégia. De relance, faria um arco temporal que começaria na década de 1970 com o Mussum e chegaria à atualidade com Paulo Gustavo. Apesar de estes serem exemplos estritamente ligados ao humor, “Nanette” nos sugestiona que tal estratégia, não raro, extrapola o mundo da arte e alcança o nosso próprio cotidiano. Mas de que forma?

Ora, basta rememorar nossas próprias experiências de vida, tal qual Hannah faz durante seus sessenta minutos de espetáculo. Quem nunca viu alguém ou até mesmo fez questão de elogiar ou exigir que negros, mulheres e homossexuais só fossem aceitos em nossos convívios a partir do momento em que eles estejam dispostos a serem condescendentes com algum tipo de bravata de ordem racista, sexista ou homofóbica? Quem nunca ouvi ou falou “fulano é gay, mas é de boa”, não é mesmo?

Trazendo à tona essas questões, Hannah acaba fazendo dois movimentos: o de discutir a questão do preconceito e o de criticar o humor que ela mesmo praticava. Nesse último aspecto, que fique claro: em nenhum momento se recupera o infrutífero debate interessado em incensar os confusos e abstratos “limites de humor”. Pelo contrário, exercendo todo seu potencial criativo, “Nanette” expõe como o debate sobre a arte é a única forma pela qual podemos esclarecer os parâmetros que fomentam a arte que nos parece ser mais relevante.

Não por acaso, mesmo passando bons momentos criticando aspectos deploráveis da vida pessoal de Pablo Picasso, ela justamente retoma o artista que ela “ama odiar” para defender que o humor e a arte só continuarão tocando profundamente nossas existências caso, assim como o pintor espanhol, defendamos o desenvolvimento e o debate de todas as perspectivas que nos pareçam ser possíveis. Sendo assim, a arte só continuará existindo se, sem medo, tivermos coragem de implodir e reconstruir aquilo nos pareça ser digno para tanto.

Viva, “Nanette”!

 

(Rainer Gonçalves de Sousa é Mestre em História, Professor do IFG/Campus Goiânia.)

Be the first to comment

Leave a Reply

Seu e-mail não será publicado.


*