Bolsonaro presidente, de quem é a culpa?

O ilustre parlamentar, Jair Messias Bolsonaro, vem aos poucos deixando de ser estatística de azarão para se tornar o possível próximo presidente do Brasil. Com tudo o que isso tem de júbilo aos seus fiéis e desespero ao resto da humanidade (incluindo os “cidadãos de bem” ou não ). A situação é simples: sem a dita esquerda (ou “força progressista”) conseguir arregimentar um nome que suplante a memória de Lula; sem o Psbd conseguir lançar uma figura não chafurdada em seu próprio pântano de ignomínia [aprendi essa expressão com o finado Enéas Carneiro]; Enfim, sem que surja qualquer outro nome nos próximos meses a somar mais de 15% da intenção de votos (seja capitaneando o espólio lulista ou dissuadindo os interesses em torno de nomes como Ciro Gomes, Marina Silva e João Amoedo), penso que Bolsonaro levará essa eleição ainda no primeiro turno.

Poderíamos interrogar de quem seria essa responsabilidade? A resposta seria clara: de seus literalmente fiéis eleitores. Os motivos: a corrupção que assola o país (desde sempre) e que pela primeira vez na história figura apenas um único nome/herói [ou seria “Messias”?] para varre-la. O espantalho já foi esculpido: é necessário extirpar o “comunismo bolivariano” do Brasil (seja lá o que isso significa desde 1964); a criminalidade atingiu níveis alarmantes e o “politicamente correto” tomou de assalto nosso “humor”. É preciso resetar a nação. Bolsonaro está disposto a acionar o botão (ou pressionar o gatilho, como queiram).

Mas a pergunta é: de quem é a culpa? A resposta demanda um pouco mais de elaboração, mas pode iniciar sendo direta: a falência dos modelos de social-democracia no Brasil materializada no fisiologismo de seus dois principais partidos: PT e PSDB. Ah, mas e o DEM e o [P]MDB? Simples, por esses nunca expressaram ao seu eleitorado um “projeto de nação” e nunca capitanearam um nome expressivo (e messiânico) [salvo em eleições locais: Goiânia e Goiás mandam lembranças] eles ficam de fora. Ao contrário, PT e PSDB não só se revesaram na presidência da república como representaram ao longo das últimas décadas – cada um a seu modo e na maioria das vezes com poucas diferenças – projetos e nomes supostamente capazes de “salvar o país”. Quem não se lembra dos vídeos de WhatsApp de Aécio Neves em 2014 clamando o voto do povo brasileiro para “livrar o país” ou o slogan de campanha de Dilma Roussef: “a esperança venceu o medo”, que atire a primeira pedra. Ou que desbloqueie algum membro da família nos grupos de chat.

Fato é que Aécio Neves foi jogado a lama. Melhor, ao pó. Talvez no bom sentido (para ele). O PSDB há muitas décadas em pesquisas de intenção de voto não amargavam tamanhos índices pífios. Talvez as insistentes perguntas dos petistas (“E o Aécio?”) tenham surtido efeito negativo sobre a imagem dos tucanos. Embora talvez, também, seja efeito dos descalabros administrativos no sudeste brasileiro em conjunto com a proliferação de escândalos envolvendo seus milicianos. A real é que o tucanado já não convence nem a eles próprios (vide os índices de desfiliação partidária e baixa curva ascendente de novas adesões), quem dirá o eleitor comum, seja os progressistas e/ou petistas, muito menos os bolsonaristas.

E por falar em mi(s)tificacão, o que restou para o PT? A condenação em segunda instância de Lula Odebretch da Silva e a deposição da ciclista, Dilma Rousseff, demonstraram a desarticulação (popular e parlamentar) do Partido dos Trabalhadores (?). A tão sonhada autocrítica necessária a legenda foi soterrada pela narrativa do Golpe. Signo esse flutuante, que serve agora para explicar qualquer coisa, ainda que não explique nada. A retórica do “avanço conservador contra as forças progressistas” só convence o sindicalista, o professor universitário sem muita criatividade para propor uma disciplina de pós-graduação ou para aquela galera que a tudo responde com outros dois signos: “vai ler um livro de História” ou “Facistas não passarão”. Haja (des)empoderamento discursivo…

E aqui resta o crescimento de Bolsonaro. É possível que não haja fôlego para o segundo turno. É possível que o “desespero vença o medo” e que uma articulação sólida entre progressistas ou entre autênticos liberais “salvem o país” das fardas do capitão-empreendedor imobiliário. Mas pode ser que não, e a contar com a curva de crescimento de sua nem tão pré-campanha, é melhor jair se acostumando com a ideia de atrasar o fuso-horário do relógio da história a base de pilha AI-5.

E o DEM e o [P]MDB? Bem, esses farão o seu papel de sempre: jogar do lado de quem tá ganhando até verem a possibilidade de ascenderem ao poder – em geral, por deposições de seus aliados – orquestrados midiaticamente ou parlamentarmente por eles. Bolsonaro se não fechar o congresso antes, possivelmente poderá cair na (des)graça dessas legendas. E a culpa? Bem, continua sendo do PT e de seu primo em primeiro grau.

 

Diego Avelino de Moraes Carvalho é Doutor em História Social e Mestre em Ética e Filosofia Política. Professor do Instituto Federal de Goiás.

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