O caso Marielle Franco e a tentativa de relativizar sua importância simbólica

Folha de São Paulo

Por Diego Moraes

De início, não há vida humana que tenha sobreposições às demais. A morte de uma pessoa (e a indignação, seja ela seletiva ou não) não impedem que se revolte por outras e se busque justiça. O Brasil tem uma taxa de homicídio na casa dos 60.000 anuais. Há um descalabro na segurança pública. Isso é fato. Mas se a morte iguala todos os seres e a dignidade da pessoa humana é um direito (humano?) essencial e isonômico, qual a razão do holofote sobre o caso da cientista social, Marielle Franco?

Vamos às ponderações:

Marielle Franco recebe a atenção da mídia (e da sociedade civil) por inúmeros fatores. E eles não são porque ao ser de origem pobre/periférica, negra, mulher, bissexual, etc., a vida dela tenha “mais importância” do que outras pessoas. A propósito, fosse isso, seguramente que grande parte das mortes dos 60.000 brasileiros receberiam uma cobertura enorme, afinal, o que mais se mata nesse Brasil são justamente as minorias. Marielle recebe essa atenção por duas razões primais:

1 – É uma vereadora eleita com mais de 45.000 votos numa das principais cidades do Brasil (e do mundo). É conhecida por sua militância, não somente no campo dos Direitos Humanos, mas nos inúmeros trabalhos sociais (inclusive assistenciais) que opera nas favelas cariocas;
2 – É executada num contexto muito peculiar: a intervenção militar no RJ e o desvelamento da ação de milícias e do excesso de militares no processo. Ainda que seja cedo – dado ao curso das investigações – atribuir culpados, não se trata de algo que demanda silêncio porque existem milhares de outras mortes ainda não elucidadas no país.

Posto isso, é compreensível a cobertura da mídia. Isso não significa, novamente, que outras vidas não tenham relevância. Significa, antes, que a morte dela abre uma caixa de pandora sensível: a do descalabro da segurança pública no Brasil. Marielle, simbolicamente, representa um Edson Luis, um Vladimir Herzorg de nossa época: alguém que enfrentou a bandidolatria (sobretudo dos de “terno e farda”) nacional e sofreu as consequências disso – ainda que as investigações estejam em estágios iniciais. Mesmo que elas apontem outras causas, centenas de outras Marielles recebem seus vereditos diários: a de que há mortes que não podem ser colocadas em evidência, sobretudo se a vitima não for um jogador de futebol ou um astro da música sertaneja. Sendo negra, mulher, militante e filiada a comissões de Direitos Humanos, aí é que se faz necessário seu silenciamento.
E isso clama mobilizações, óbvio! É muita insensibilidade – e em alguns casos, desonestidade e desumanidade – desvestirmos o caráter simbólico dessa execução sumária da Marielle, invisibilizando o ato uma vez que milhares de outras pessoas morrem todos os dias. A questão nunca foi essa! Não se trata de seletividade. Não da “parte de cá”.

Não entendeu até agora? Vou fazer um experimento mental para que compreendam:

— Imaginem que dois dias após a condenação em II instância do ex-presidente Lula, os desembargadores do TRF4 fossem executados sumariamente. Seguramente, a hipótese de crime político adviria, e seria mais do que natural que a sociedade civil ficasse em alvoroço e clamasse uma severa investigação. Agora imaginem que nesse contexto surjam vozes dizendo: “Isso é mimimi da Direita. Pessoas morrem todo dia e ninguém fala nada [sério mesmo? Alô Datena]. A mídia só fala disso, blá blá bla”.

Seria insano, né? Mas por que as pessoas pontuariam isso como um caso diferente? Simples, porque os desembargadores do TRF4 atuam em causas que lhes convém. Marielle, ao contrário, atuava em causas que são vistas por grande parte da sociedade como afrontas ao status quo. A prova disso é tamanha que basta ver os comentários em diversas mídias que dizem coisas do tipo: “Vai tarde”, “Bem feito”, “Se é de esquerda mereceu a morte”, “Foi defender bandido, deu nisso”. Entendeu agora que a seletividade está quando se tentar desvestir o caráter simbólico da morte de Marielle? Obrigado.

Para encerrar, eu acho que os ditos “cidadãos de bem” deveriam estar felizes pela celeridade da justiça e da polícia investigativa, da mídia e do estardalhaço dos movimentos sociais. Foi um crime que – a depender dos resultados da investigação – pode abrir novos flancos de reflexão sobre a questão da segurança pública do país. Do debate se geram proposições e se escancaram diagnósticos.

Mas aos que continuam indignados, lanço um desafio:

Abram uma ONG ou integrem algum trabalho que vise proteger indivíduos que sofrem violência diária. Participe de grupos de apoio a vítimas da criminalidade diária. Elabore projetos de intervenção na sociedade. Se lance na vida política. Elabore uma dissertação de mestrado que demonstre os dados daquilo que expõe.

Do contrário, sua tentativa de diminuir o caso só demonstra que você não está necessariamente preocupado com a onda de assassinatos no Brasil; que é alguém que clama justiça… Talvez no fundo você esteja incomodado com o fato de que alguém – de origem pobre e favelada, mulher, bissexual, que venceu na vida acadêmica através de muito esforço (e bolsa de estudos), que fez mais pelo país do que você no destilar diário de ódio no facebook – esteja recebendo o devido trato da justiça, da política, do governo e da mídia. E isso diz muito sobre você, “cidadão de bem”. Em geral, dito cristão (o que é um ultraje com Cristo) – que comemora a morte de alguém por sua vinculações ideológicas ou que, nas máscara que vestem da hipocrisia, tentam invisibilizar e igualar uma morte tão simbólica como esta.

Marielle, Presente.

 

Diego A. Moraes Carvalho é Doutor em História Social e Mestre em Filosofia Política. Professor do Instituto Federal de Goiás

Andre Barbosa
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Jornalista, músico e palpiteiro político-econômico. Estudante-pesquisador de direitos humanos, gênero e marcadores sociais.

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