O embranquecimento do Hip-Hop observando o Rap Goiano

Da esquerda para a direita: NB, Wine B., Luz Negra, Gasper.

Com origem nos guetos jamaicanos e americanos, o movimento Hip-Hop surgiu nos EUA, mais precisamente no Bronx, na década de 70.

Criado por pretos e latino-americanos, o Rap (um dos pilares do Hip-Hop) logo ganhou grande popularidade em meio à comunidade Afro Americana e passou a ser instrumento de empoderamento negro pelos lugares por onde passava e se estabelecia. Segundo a empresa de streaming Spotify, a música Rap foi a mais ouvida no ano de 2015 por todo o globo, superando, inclusive, o Rock. Como a maioria dos gêneros musicais negros a alcançar popularidade, o Rap chegou aos ouvidos de pessoas de diversas etnias e culturas, e, como consequência, também passou a ser não só ouvido, mas também feito por pessoas brancas. O que, por sua vez, não é um problema, desde que se entenda de quem deve ser a posição de protagonismo em um movimento preto e que se respeite esse fato. Como diz o rapper Amiri em seu single “Apollo/Rude Bwoy”, “[…] salve os MC branco que respeita a raiz […]”, e o paulista Coruja BC1 em entrevista ao canal do YouTube Programa Freestyle, “[…] Rap tem cor sim. […] O Hip-Hop é cultura negra, o Rap é música negra […]”, e faz uma comparação com um sushi, que mesmo sendo preparado por alguém de fora da cultura oriental, não deixa de ser uma comida japonesa, assim como, Rap feito por brancos não deixa de ser Black Music.

O propósito aqui é falar sobre o embranquecimento do gênero de uma forma geral, mas tendo como base a cena (ou a tentativa de estabelecer uma cena) goiana, pelos olhos de um residente da Grande Goiânia.

O Rap teria chegado ao Brasil na década de 80, e logo tomou conta das periferias paulistanas e, em seguida, de outras grandes metrópoles, até tomar a proporção vista hoje, ocupando praticamente todo o território nacional. Com temáticas, em sua maioria, negras e periféricas, nomes como Racionais MC’s cantavam sobre racismo estrutural, pobreza, violência policial e outros problemas que assolam não só os pretos brasileiros, mas a população pobre em geral. Durante boa parte da história, o Rap feito por aqui tinha como modelo essa vertente crítica, mas com o passar dos tempos, o início de uma estruturação de mercado e outros fatores, o estilo foi tomado pela diversidade e passou a tratar de outros temas e a ganhar uma nova estética musical. O que não é ruim, muito pelo contrário.

Porém, o que se percebe é que, com o interesse da grande mídia e do crescimento do público vindo da classe média, artistas menos críticos e conscientes sobre a afirmação negra tem ganhado mais espaço e já parecem ter tomado conta do movimento. Um dos pontos ruins é o fato de termos como porta-voz Rappers que não compreendem os problemas que nos assolam enquanto pretos, pobres e periféricos em uma sociedade eugenista, e, assim, não é incomum se deparar com debates vazios em redes sociais com argumentos do tipo “somos todos iguais”, “cor não importa” e outros que fortalecem o vazio discurso branco sobre racismo, quando claramente não somos iguais e sabendo que cor da pele importa sim. Basta pesquisar os índices de negros nas faculdades, no mercado de trabalho, em cargos de chefia, e a característica de nossa população carcerária.

Após uma breve pesquisa pessoal por alguns canais no YouTube ligados a artistas e produtoras do gênero Rap residentes em Goiânia, Aparecida e Trindade, não é difícil perceber que os artistas brancos daqui tem os vídeos com o maior número de views seguidos por MC’s pretos que não trabalham temáticas raciais. Do outro lado, os poucos artistas pretos empoderados com o mínimo de visibilidade parecem ter menos relevância no cenário.

Em meio a aparição de novas crews de MC’s, é fácil perceber a baixa representatividade preta. A maior parte dos coletivos é formada majoritariamente por Rappers, produtores, videomakers e DJ’s de pele branca. A baixa representatividade acontece também nos videoclipes, onde a preferência para papeis femininos de protagonismo é de ruivas, loiras ou brancas de dread, limitando as aparições de mulheres negras apenas a cenas com teor sexual ou de forma objetificada.

Em um movimento que pouco ou nada conhece sobre suas raízes, não é incomum presenciar ofensas racistas nas diversas batalhas que acontecem na cidade de goiânia. Pessaolmente, tenho visto conteúdo nocivo em praticamente todas as batalas que assiti nos últimos meses. Ofensas racistas, machistas, misóginas e homofóbicas são cada vez mais frequentes e parece agradar bastante o público, que, inclusve, muitas vezes permite que esses competidores vençam os duelos.

Em uma das capitais mais embranquecidas do país, resta esperar que haja mais espaço para artistas negros como Gasper, Wine B., a MC de batalha Inà, Rakel Reis, DJ Johnny Black, DJ Daniel de Melo, assim como, produtores culturais, produtores musicais e outros ligados ao grande movimento Hip-Hop.

Athualpa
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Athualpa "A.Jay A.Jhota" Magalhães Jr. é estudante de turismo, ex centro-avente da escolinha do Flamengo aos 17 anos, preto, rapper e amante da cultura Hip-Hop.

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