O psicólogo Marcos Carvalho escreve sobre “a hora de olhar para dentro”

Sempre é possível repensar os caminhos da vida. A queda de braço entre conquistas e medos contemporâneos se torna pesada e precisamos redirecionar e reorganizar os caminhos.

As pressões pelo sucesso profissional, pela completude familiar/amorosa e as cobranças diversas do mundo pós-moderno nos deixam esgotados. É preciso dar atenção a tanta gente, oferecer retornos, corresponder à expectativas e ainda demonstrar todo êxito profissional e social. É preciso ser feliz no Instagram e Facebook. É preciso responder rapidamente as mensagens das redes sociais.

Outro dia uma amiga telefonou frustrada com a profissão. Ela dizia das “panelinhas” que não a permitem entrar na área profissional escolhida, que um grupo de profissionais monopoliza os espaços e a bloqueia, e só via duas saídas, mudar de cidade ou de profissão. Saber lidar com a voracidade do mundo do trabalho é uma habilidade sútil e tênue. Saber se reinventar profissionalmente é sempre um desafio, mas esse desejo é de que ordem? Da competição externa ou da “competição interna”?

No mesmo contexto, num café em outro local, outra amiga relatava que nunca aceitou sua deficiência física, passando anos maquiando fotos, utilizando ferramentas e tecnologias para disfarçar uma perna maior que a outra. Na verdade nunca se aceitou. Odeia quem é, odeia ser assim, e odeia as frases feitas sobre aceitação.

Num outro jantar um senhor de aparentemente quarenta anos pulou de cadeira pra sentar comigo ao saber que sou psicólogo (isso sempre acontece, ainda que minha reação seja de nunca fazer qualquer intervenção, solto apenas um sorriso amarelo). Ele relatava em tom de voz baixo uma vida de infidelidade e fantasias sexuais diversas, mas incapaz de romper a relação tradicional com esposa e família pelo espaço profissional que ocupa e pelo destaque na (dita) sociedade. Milionário, jamais abriria mão da metade da fortuna construída a duras penas, mesmo sabendo isso impactaria em sua realização plena.

Passei dias tentando conectar as três histórias e encontrar um elo, um ponto de referência para compreender os caminhos perpassados e que levam a construção de uma angústia tão real, e que a nosso olhar externo parece de simples resolução. Passei dias repensando esses fatos sob a régua das experiências vividas e das minhas concepções pessoais, de homem e de mundo. As provocações do mundo externo nos forçam a reativar nossas próprias provocações. Em algum momento da vida seremos forçados a olhar para o espelho, nos perceber, nos enxergar, e tomar a real dimensão do que construímos, do que fizemos (ou fizeram) de nós, ou deixamos fazer.

Esse olhar direto nos balança ao ponto de reavaliar a trajetória, e fazer o cálculo do tempo, do que já foi e do que (possivelmente) ainda temos. Se a média de vida são oitenta anos, quem se aproxima dos quarenta já está completando 50% do caminho. Espero chegar ao fim (se é que existe fim) sedimentando os aprendizados e organizando os potes de sabedoria que um vida plantou comigo e eu colhi. Não feito o clássico Rei Lear, que tornou-se velho sem tornar-se sábio.

A vida é cheia de caminhos, e os espelhos estão por toda parte, o que falta, às vezes, é coragem para olhar, é atenção para perceber, é capacidade para escutar (escutar está além da capacidade de ouvir).

É preciso saber conduzir a vida para que as querelas do cotidiano, as panelinhas de todos os contextos, os medos líquidos não consumam nossa capacidade de se reinventar. Que os medos não nos devorem, e que as potencialidades de recriar sentidos e significados seja a mola propulsora de cada um de nós.

Marcos Carvalho é psicólogo, doutorando em Psicologia (Desenvolvimento Humano) pela UnB.

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