A arte agora c’est ennuyeux

 

Duchamp já inaugurava uma crítica nas belas artes que construiria um processo de evolução na discussão internacional. Na verdade, não só ele mas como toda a Semana de Arte Contemporânea gerou alvoroço, cumprindo assim seu papel social. Mas, assim como toda produção cultural brasileira, só uma centena de pessoas tem a chance de presenciar e discutir a difusão artística mundial. Junte a isso o usufruto da mídia como manipulação de massas e teremos uma sociedade em convulsão.

O Movimento Brasil Livre vem protagonizando com excelência promoções à censura na arte, primeiro com o Queermuseum e agora dentro do MAM. Quem diria que um dia o bracelete de guardiões da moral seria pregado no braço do MBL e à ponta de sua mão a caneta política do conservadorismo do vale tudo assinaria em nome da proteção da pureza infantil. Esse movimento, que quando abre a boca para discursar, deixa as migalhas de farinha de coxinha cair pelo seu caminho sujo, vem conseguindo aplacar a empatia de quem para para ouvi-los.

Também não posso os culpar unicamente. A dona Clarice, que passa rapidamente pela televisão e ouve a Renata Vasconsellos falando de La Bête ficaria horrorizada. Meu deus, isso aí é pedofilia! A maioria esmagadora vai se levar pelo pensamento da ira momentânea e mal vai pensar no acontecido, até por que, porque fariam isso? Foi a tevê quem vomitou essa ideia e confiamos na mídia!!

A essência da empatia está na proximidade. As crianças nos rodeiam a todo instante (literalmente), a arte não, quando passa, passa desatenta aos olhos. A base da pirâmide social brasileira se sente muito mais comovida em comprar a briga de proteger seus filhos da erotização do que pensar pelo viés da interculturalidade em que seu filho fica exposto e como isso o faz crescer enquanto cidadão. Quando se estigmatiza a nudez, colocando-a num pedestal na qual crianças não podem ter acesso se cria um pensamento errôneo sobre o próprio corpo e o corpo de outrem. A mãe e o pai que colocam o corpo do filho como pauta secundária dentro de casa estão deixando que problemas como a pedofilia e a explração sexual infantil se proliferem, sendo que poderiam ser evitadas por práticas de diálogo. Queermuseum em Porto Alegre estava aí pra isso.

Quando há a fusão de interesses políticos com a mídia vemos o que vemos e censuras são instauradas nas onze artes. Uma a uma o conservadorismo põe seu dedo carregado de tinta para tapar a realidade retratada. Agora, em épocas de perturbação social até a liberdade cultural e artística passa a ser velada pelos olhos do escândalo e do absurdo, sendo que até Nietzsche já se firmava: “temos a arte para não morrer da verdade”.

Andre Barbosa
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Jornalista, músico e palpiteiro político-econômico. Estudante-pesquisador de direitos humanos, gênero e marcadores sociais.

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