Opinião: A satirização do estupro de Mamonas a Costa Gold

“Roda, roda e vira, solta roda e vem

Me passaram a mão na bunda e ainda não comi ninguém”

 

Difícil imaginar alguém que não conheça a frase acima. Seja crianças da geração atual ou pessoas nascidas até os anos 90. Todos conhecem Mamonas Assassinas e suas músicas que, hoje, dados os debates atuais, poderiam gerar uma série de discussões sobre os conteúdos nas letras que entrariam em qualquer conversa sobre racismo, machismo, xenofobia, e etc.

 

Na música, Manoel, um dos personagens, é convidado para “uma tal de suruba” e, sem saber do que se tratava, envia a esposa Maria para representá-lo no compromisso, mas só quando Maria volta para casa “toda arregaçada”, é que Manoel descobre o que aconteceria em nessa tal de suruba.

 

Nada demais para uma música feita nos anos 90 – também conhecidos por algumas pessoas como “Terra Sem Leis” (Xuxa e Short Dick Man que o digam) – mas bastante questionável nos tempos atuais, embora satirizar estupro e procurar justificativas para dizer que a vítima mereceu ou até pediu para ser estuprada ainda seja um mal dessa geração. Na música  dos Mamonas Assassinas tenta-se convencer a vítima de que está tudo bem, que não foi nada demais, e que é tudo exagero de Maria.

 

Talvez você não saiba (ou finge que não), mas fazer sexo com uma pessoa sem o seu consentimento, esteja ela em uma orgia ou na sua casa, sob efeito de álcool ou drogas ilícitas, com roupas curtas, de burca e até mesmo sem roupa, é estupro. Se essa pessoa estiver desacordada, apenas esse fato já classifica o que algumas pessoas chamam de sexo como ESTUPRO. Seja essa pessoa a sua namorada, amiga ou esposa.

 

“Deixa ela dormir que se ela vira, eu como. Boto o cano na guela e atiro o gozo”. Pode parecer só mais uma música sem noção dos anos 90, mas o trecho foi retirado da música “Preguiça” (que eu não recomendo que escutem, por motivos óbvios) do Rapper carioca Xamã com participação dos paulistas do Costa Gold, composto por Predella e Nog. Esse último, o autor da frase citada.

 

O Rap, mesmo sendo um gênero musical de questionamento, ainda tem raízes bem solidas no machismo, e parece evoluir pouco dentro desse debate sobre uma ocupação mais democrática dentro do espaço do Rap. Isso está implícito na escassez de artistas femininas no Mainstream, seja como MC/Rapper, DJ, beatmaker, produtoras, etc, e fica cada vez mais aparente quando surgem músicas com conteúdo semelhante ao proferido por Nog.

 

A quem diga que é tudo culpa do Funk.

 

Letras machistas e misóginas não são exclusividade do Funk, pelo contrário, estão presente em todo meio Pop. Abuso e reforço do poder masculino estão presentes em todos os tipos de conteúdos musicais, basta ouvir as principais músicas sertanejas que fazem sucesso hoje e verá que na maioria delas vai ter um cantor dizendo que mulheres só se interessam por carros ou dinheiro, tentando justificar adultério, ou até mesmo forçando alguém a estar em em relacionamento, reforçando relacionamentos abusivos (Henrique & Juliano entenderam). E o Rap, claro, também bebe dessa mesma fonte.

 

Vítimas de estupro são frequentemente submetidas a situações de questionamento. Primeiro acredita-se que a vítima está mentindo e joga-se a ela a responsabilidade da prova. Basta procurar por depoimentos de vítimas que passaram pelo constrangimento de ter que provar que não estavam mentido, mesmo com provas claras do crime. Existem, inclusive, projetos de lei que poderiam dificultar o atendimento às vítimas de estupro e proibição de aborto, mesmo em casos em que a gestação é fruto de estupro, geralmente encabeçada pela bancada de fundamentalistas religiosos no Congresso Nacional.

 

Mas a grande questão é: sexo sem o consentimento não é sexo, é estupro, aconteça com uma desconhecida ou com a sua esposa. Mesmo que colocado como “poesia” ou brincadeira em uma letra de música.

 

Disque 100 para denunciar abuso sexual infantil.

 

 

Athualpa
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Athualpa "A.Jay A.Jhota" Magalhães Jr. é estudante de turismo, ex centro-avente da escolinha do Flamengo aos 17 anos, preto, rapper e amante da cultura Hip-Hop.

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