Parada LGBT em Goiânia reúne cores e preconceito

“Ka-ro-lly-ne. Isso! Com dois ll e y”. Seu nome era uma de suas preocupações. Karollyne Lorraini, uma dragqueen cheia de personalidade e glitter que desfilava pela Parada não poupava brilho e fala autêntica. “É, senão, o evento mais importante para o movimento LGBT de Goiânia”. Ela era, dentre as dezenas de outras, mais uma que estava ali para pedir igualdade, respeito e a redução da violência contra a diversidade de gêneros e sexualidade.

O evento que acontece há 22 anos na capital goiana conta com as figuras mais caricatas e cheias de vida da cidade. Lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transgêneros e transexuais, toda a sigla LGBT, se reuniram na esquina da avenida Contorno com a Araguaia para fazer presença na XXII Parada LGBT de Goiânia. Neste ano, com a ajuda de cerca de 15 ONGs a Parada movimentou pelas avenidas de Goiânia quase 50 mil pessoas embaladas ao som de Pablo Vittar.

“Esse é meu terceiro ano na Parada, e cada vez só melhora” é a opinião de Flávia Cristina, 23, que esse ano foi junto com a namorada para curtir o evento. Ao ser perguntada se este ano o público lésbico foi maior do que no passado, Flávia diz: “hoje só tem as maravilhosas aqui” – a namorada ao lado belisca e sorri – “esse ano eu estou acompanhada (risos), mas ano passado eu aproveitei até amanhecer”.

Três trios elétricos com diferentes atrações deram movimento à Parada. Sobre o maior dos trios, falou Leo Mendes, o responsável pela primeira Parada LGBT de Goiânia, que ressaltou a importância do evento. Organizadores e colaboradores discursaram a respeito da lesbofobia que era o tema central da Parada este ano.

Kátia Maria, representante do PT, falou sobre as proporções do evento. “A Parada LGBT em Goiânia já é uma manifestação social indispensável para toda a comunidade”. Falou ainda sobre as atitudes a serem tomadas em caso de discriminação, “lesbofobia é um crime que deve ser denunciado. Se você passar por isso ou conhecer alguém que esteja sofrendo discriminação procure as autoridades e denuncie”.

O preconceito

Já quando a multidão havia saído em direção ao Centro, alguns poucos ficaram próximos ao estacionamento do Multirama. Os ambulantes já retiravam seus produtos e o movimento do supermercado já voltava ao normal do lado de fora. Foi quando passou pela frente do Tatico, Juliana (Juju), um homem trans, acompanhado de 2 outras pessoas. Os três haviam acabado de chamar um Uber para voltar para casa. Escorados no corrimão do supermercado conversando e brincando em tom distraídos pareciam felizes com o evento que acabaram de sair. Foi uma boa oportunidade em que vi para fazer algumas perguntas sobre o que acharam do evento. Juju me contava que já participava da Parada há 6 anos, e que este ano não ficou muito satisfeita. “Esse ano achei uma bosta, antigamente tinha quatro, cinco trios. Tinha muito mais música e gente”.

Enquanto me relatava sua opinião, dois rapazes de bermuda, camiseta e chinelo montados em bicicletas passaram e gritaram alguma coisa pra Juju, algum tipo de ofensa. Imediatamente ele os respondeu gritando “Ou! O que é? Me respeita! ”. A partir dali começou um clima tenso entre os rapazes que começaram uma longa e agressiva discussão com Juju. Um dos rapazes na bicicleta era o que mais estava exaltado e não poupava xingamentos para Juju, que sempre os respondia à altura da ofensa.

A situação chamava atenção dos que estavam próximos. Juju não se calava. Os dois em cima da bicicleta andavam em círculos no meio da rua e só ficavam mais alterados a cada vez que suas ofensas eram respondidas. Em um momento, um deles joga bicicleta na calçada e faz menção de vir para cima de Juju que não deixava impune as ofensas recebidas. O rapaz que acompanhava Juju era seu irmão, Carlos, que o colocou contra as grades do corrimão, apertou sua boca e dizia “cala a boca Juliana! Cala a boca! Quer morrer hoje? Então cala a boca”.

Neste momento os seguranças do supermercado já estavam do lado de fora observando a situação. Toda a briga já durava cerca de uns 15 minutos e nenhum carro de polícia passava por ali. O agressor, em pé de frente para Juju dizia “tu é um verme mano, é um gayzinho bosta”. Carlos que continha a fúria do irmão em tentar responder, nesta hora tentou apartar a briga dos dois lados, “vai embora cara, deixa a gente em paz”. E funcionou. Os dois ciclistas partiram.

Um pouco agitado ainda, Juju balançava a cabeça inconformado. “Isso acontece com frequência?”, perguntei. “Direto mano, direto. Veado e sapatão nessa cidade é [tratado] merda”. Dito isto os dois novamente na bicicleta passaram, mas dessa vez ameaçando de morte, “nois vai buscar o canhão pro cê agora. Vamo lá, vamo ”, apontaram o dedo para nós e saíram pedalando para o outro lado da avenida. Juliana, Carlos e a amiga, saíram dali às pressas com medo de algo acontecer.

O acontecido não é uma exceção na vida da comunidade LGBT. Juju ainda tinha um irmão e uma amiga para dar apoio para que aquilo não passasse de ofensas verbais e chegasse no ponto de uma vida ser tirada em nome da intolerância. Em um evento que reúne pessoas com um discurso politizado, gritos de justiça e bandeiras com escrita de paz, a Parada, hoje, só ajuda a mostrar que as políticas públicas de segurança e respeito à diversidade avançaram mas ainda são poucas.

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Andre Barbosa
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Jornalista, músico e palpiteiro político-econômico. Estudante-pesquisador de direitos humanos, gênero e marcadores sociais.

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