Por que falar de embranquecimento no Rap na terra do Samba Branco

Há mais ou menos um ano, começamos aqui no Goianidades uma discussão sobre O Embranquecimento do Hip-Hop observando o Rap goiano. Avaliando a repercussão do artigo pelas ruas e, claro, também pelas redes sociais, analisando o conteúdo dos comentários, o teor discussão e lendo algumas dúvidas sobre o tema, pude confirmar o que eu já sabia quando me propus a falar de um assunto tão delicado: falar sobre racismo incomoda. Principalmente quando os argumentos partem de quem é mais afetado por esse sistema.

Com a abertura da conversa, ou a sua tentativa, agora se faz necessário aprofundar um pouco e ampliar o debate para juntos tentarmos compreender qual a necessidade de falarmos sobre embranquecimento dentro um movimento tipicamente preto antes que os pretos dentro dele comecem a perder a sua posição de protagonismo.

A intenção do primeiro artigo era ser breve e direto, falando um pouco sobre história e tentando analisar a estrutura do Rap na cidade de Goiânia e seu entorno. Infelizmente, ou felizmente, adentrar ao assunto exige uma disposição um pouco maior e, obviamente resultará em uma leitura e pesquisa um pouco mais longas.

Antes de tudo, é preciso dizer que quando sugerimos reflexões como esta sobre embranquecimento, em momento algum estamos colocado à prova a legitimidade dos MC’s, DJ’s, produtores, beatmakers, videomakers, ou qualquer outro artista de etnia branca ligado ao Rap. Sabemos que existem um número considerável de pessoas brancas que tiveram e/ou ainda tem importância na construção ou manutenção do nosso movimento. Mas também reforço que é preciso compreender o meio em que se está inserido e entender que existem posições de privilégio e é necessário prestar atenção nesse fato. O Hip-Hop é um movimento negro, mas que está inserido dentro de um sistema estruturalmente racista, que costumamos chamar de sociedade, e que o afetará diretamente, quer queiramos ou não.

Falar sobre embranquecimento não é novidade, mas, talvez, pelo fato de hoje um número maior de pessoas terem acesso a informação de um modo geral, graças à expansão da internet, só agora tenha chegado aos seus olhos ou ouvidos. Mas o assunto já é antigo e relevante, seja no Brasil ou fora dele.

Dito isso, podemos prosseguir.

Em 2014 surgiu nos EUA a polêmica envolvendo o Grammy Awards sobre a premiação nas categorias relacionadas ao Rap, onde Meacklamore & Ryan Lewis venceram nas categorias de Melhor Canção de Rap e Melhor Álbum de Rap, nessa última desbancando trabalhos de Kendrick Lamar, Jay-Z, Kanye West e Drake, alguns desses com trabalhos considerados mais desafiadores e originais. O fato gerou muita discussão sobre a participação de artistas brancos no Rap e reforçou a dúvida: Estaria o Rap passando por um processo de “whitewashing“?

Em tradução livre, whitewashing significa lavagem branca, embranquecimento. É o que acontece hoje com o Jazz e o que aconteceu, por exemplo, com o Rock, gênero que foi ocupado pelos brancos na década de 60, apagando quase que por completo a participação dos negros. Gênero esse que, inclusive, gerou outras vertentes racistas, misóginas, etc.

É importante citar o Rock, mas também é necessário entender que o embranquecimento no Rock se deu de uma forma diferente da que estaria acontecendo no Jazz e até mesmo no Rap. O processo aconteceu de uma forma muito mais rápida. O Rap já existe há mais de 40 anos e ainda mantém o protagonismo preto nos EUA e no Brasil, países onde o gênero musical nasce em ambientes periféricos e, sendo assim, majoritariamente negros. Por isso a importância de se começar essa discussão quando esse processo de lavagem é ainda só uma tendência e não um fato consumado.

Quando falamos em racismo, seja dentro do Rap ou em qualquer outro contexto da sociedade, é bastante comum que surjam discursos pré prontos com os títulos “arte não tem cor” ou “somos todos iguais”. Mas será que somos todos iguais? Não, não somos. Não somos todos iguais e, obviamente não somos tratadas dessa forma, levando em conta que vivemos em uma sociedade racista onde existe a falsa ideia de democracia racial. Falsa, pois características negras e sua cultura só são exaltadas quando vistas fora dessas pessoas. Essa “mistura” racial só é bem vista quando clareia, não escurece. Com isso, é possível que alguém como Monalysa Alcântara, uma mulher negra de pele relativamente clara e traços “afinados” vença a edição do Miss Brasil de 2017, enquanto o feito é quase impossível para uma mulher negra de tom de pele escuro e cabelo crespo do tipo 4C.

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Mas o que tudo isso teria a ver com o Rap, já que o Rap ainda é um movimento onde os pretos exercem posições de destaque e, teoricamente, seria um espaço aberto à todos, onde todos tem as mesmas chances de se estabelecer?

Em 2017, o Rapper Raffa moreira foi um dos protagonistas envolvendo os escolhidos para representar o Rap no festival Lollapalooza. Evento elitista e quase que exclusivamente composto por público branco e de classe média à classe alta. “Porta para o fim dos negros no Rap”, escreveu Raffa em uma de suas redes sociais, sobre a escolha de nomes como Haikaiss pelos organizadores do Lolla.

Pode parecer exagerado em um primeiro momento, mas o destaque de grupos compostos por Rappers brancos e, muitas vezes, com origem na classe média é algo cada vez mais comum e realmente pode significar o fim dos negros no Rap em ano ou décadas. Atenção para a palavra “pode”, o que significa que existe a possibilidade, mas que não seja algo definido/certo.

Haikaiss, que é formado exclusivamente por Rappers brancos, faz parte do coletivo/selo Damassa Clan, que além de Costa Gold, Don Cesão, conta com uma quantidade absurda de integrantes brancos em posições de destaque e alguns poucos negros em posições secundárias. Fato que pode ser conferido nos Cypher da crew.

Em 2017, Raffa twitou:

“mais escroto do uma mob de rap com 28 brancos e 4 preros jamais @DJQualy racismo velado vai brecado de um jeito ou de outro ta #rawrawemo 😁”
— March 17, 2017

Dentre os MC’s e crews de destaque, essa diferença também pode ser sentida. Assim como na capital do Rap, em Goiânia também cresce o número de artistas oriundos da classe média a conseguirem destaque (a grande diferença é que ainda não temos um mercado formado, portanto os destaques são menos expressivos). Como sabemos, a classe média brasileira é formada por uma imensa maioria de pessoas que levam em sua pele a herança de imigrantes europeus, que chegaram ao Brasil de diversas formas já contadas pelos livros de história, portanto, com a ascensão da classe média no Rap, o reflexo disso é um aumento de brancos se destacando dentro Hip-Hop, ocupando o lugar dos pretos que o construíram.

Sempre que falamos sobre racismo no Rap, nos vêm dúvidas e argumentes alicerçados na ideia de que não existem só pretos pobres, que tem muito MC branco que não é playboy, que todos estão na mesma, que as oportunidades são as mesmas pra todos. Então, não são. Ser pobre e ser preto pode até ser parecido, mas não é a mesma coisa. Mesmo na condição de pobreza, existem privilégios em ser branco e isso pode ditar, inclusive, a possibilidade de se sair da pobreza.

Em entrevista a Carta e Educação, Lia Schucman fala sobre a relação entre branquitude e privilégios. No trecho abaixo, Lia relata:

“[…] Entrevistei um mendigo branco e ele me contou que, sem pedir dinheiro, ele ganha mais que os colegas negros. É como se a estrutura racial fosse tão forte a ponto das pessoas acharem que o branco não pode estar naquele lugar e ajudam. Já para o negro, é natural. […]”

A mesma ainda diz em entrevista a Fapesb:

“[…] Um mendigo de rua me disse algo muito forte. Quando perguntei “O que é ser branco, para você?”, ele me respondeu: “Eu posso entrar no banheiro do shopping e meu colega preto não” […]”

Isso mostra que mesmo na condição de mendigo, é mais fácil ser branco do que preto, o que ilustra muito bem o privilégio branco.

Em todos os meios da sociedade, a cor da pele é quem dita as oportunidades que o sujeito tem acesso. Homens e mulheres pretos ainda ocupam pouco espaço significativo no mercado de trabalho. Os cargos de chefia ou liderança raramente são ocupados por negros, desse modo, negros ainda ganham menos do que brancos, ocupam menos vagas na faculdade e menos ainda em curso considerados de elite, com medicina, direito e etc.

No mundo da música isso não é diferente. É comum ver cantores brancos nos grandes selos de Jazz. Até mesmo ícones negros como Beyoncé ou Rihana passam por uma clara tentativa de embranquecimento por parte das gravadoras, que passam sempre uma imagem mais claras dessas artistas, a fim de vender uma imagem mais aceitável ao público branco americano, que costuma rejeitar ou dar menos atenção à cantores pop de cabelo crespo e tom de pele escura.

É o que explicaria, por exemplo, a rápida ascensão da cantora Cynthia Luz, que sequer tem origem artística no Rap, conhecendo pouco sobre o gênero, como a mesma já disse em entrevistas, mas que mesmo assim, se tornou ícone do Hip-Hop em apenas um ano. Cynthia passou a ser conhecida pelo público do Rap depois de participar de um projeto acústico com o brasiliense Froid, fazendo algumas linhas de vocal. À partir daí, a cantora passou a ser chamada para entrevistas, para participar de músicas, e outros grandes projetos, até emplacar sucessos com o próprio Froid e o Rapper carioca Sant. Em pouquíssimo tempo a artista já estava estabelecida, com público fidelizado e já lançou um álbum. Conquistas que se deram em um tempo incrivelmente curto se comparado a outras artistas negras do Rap, mas que exercem uma função mais ativa de politização negra e feminista. Nem Karol Concá chegou tão longe em tão pouco tempo. Já prevendo as respostas à esse trecho, deixo bem claro que A Chyntia é uma grande artista e de forma alguma está sendo menosprezada aqui, mas, apenas servindo de exemplo.

Claro que os negros ainda conseguem destaque dentro do Hip-Hop e ainda possuem o seu protagonismo – Froid e Djonga estão aí pra provar isso, levando em conta que são MC’s que conseguiram sucesso meteórico dentro do Rap – mas é preciso levantar discussões como essa para garantir a manutenção dessa posição de protagonismo e evitar que nossa cultura urbana também passe pelo whitewashing.

Consuma música negra, estude sobre questões raciais, procure por dados. Racismo não é uma questão de igualdade ou a falta dela, é uma questão de compreensão sobre privilégios. Escute rappers negros. Fortaleça as músicas de empoderamento tanto quanto as músicas de festa.

Somos nós quem fazemos o Hip-Hop.

 

Fonte:

www.noticiario-periferico.com

www.teses.usp.br

rapmais.com

www.bocadaforte.com.br

g1.globo.com

gente.ig.com.br

Athualpa
About Athualpa 16 Articles
Athualpa "A.Jay A.Jhota" Magalhães Jr. é estudante de turismo, ex centro-avente da escolinha do Flamengo aos 17 anos, preto, rapper e amante da cultura Hip-Hop.

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