Que retornem os militares!

No documentário Barra-68, o publicitário Sergio Dymacau narra que, em 1964, ele e outros estudantes da UnB (Universidade de Brasília) foram presos e levados para o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social).

Entre os detidos, no chão de alguma sala do prédio, exatamente ao seu lado, estava Golbery do Couto e Silva Filho. Sim, o filho do general Golbery (o bruxo, o feiticeiro, articulador do golpe militar) era estudante da UnB e estava lá entre os subversivos que foram presos pelo mesmo regime arquitetado por seu pai.

Dymacau afirma que um tenente da Marinha entrou no local e chamou:

“Golbery do Couto e Silva Filho”.

Silêncio.

Depois de um tempo, retornou e chamou mais uma vez:

“Golbery do Couto e Silva Filho”.

Silêncio.

Na terceira vez, o jovem estudante, filho do homem, respondeu:

“Sou eu. Agora, avisa para o meu pai que eu só saio daqui se todos forem soltos”.

Uma coisa parecida, porém bem mais trágica, ocorreu com o Nelson Rodrigues. O grande dramaturgo brasileiro era apoiador da ditadura. Dizem que admirador do presidente Emilio Garrastazu Medici. Já o seu filho, o Nelsinho, entrou para o MR-8 (Movimento Revolucionário Oito de Outubro) e pegou em armas para enfrentar o regime.

Um dia, em 1972, foi preso durante o governo do mesmo presidente admirado por seu pai. Quando Nelson Rodrigues conseguiu visitá-lo na prisão, uma das primeiras perguntas que fez foi:

“Você foi torturado?”

“Barbaramente”.

Naquele dia, tudo mudou:

“A cara do velho. Aí caiu a ficha.”. Comenta Nelsinho.

O pai era influente e encontrou, em negociações com os militares, um modo de tirar o filho da prisão. Ele iria direto para o exílio. Mas, Nelsinho recusou o salvo conduto. Só foi libertado em 1979, com a anistia.

Ah! Malditos Golberyzinhos e Nelsinhos. Tinham o mesmo nome, o mesmo sangue dos seus velhos, mas eram de gerações e trincheiras estranhas.

Hoje, vejo gente defendendo o retorno dos militares sem saber que algumas das pessoas que mais amam descerão aos porões tão logo soe a trombeta do primeiro anjo. É estranho esse divórcio entre os sentimentos pessoais e as posições políticas. Como se as pessoas que amamos, em nível pessoal, estivessem completamente seguras das posições que defendemos, em nível político.

Ora, Nelson Rodrigues defendeu a ditadura porque era anticomunista. Certa vez, perguntou a um amigo:

‘Se o partido mandar você me matar, você mata?’

‘Mato.’

Tomou horror do comunismo. Disse Nelsinho.

Parece que o que o nosso dramaturgo não aceitava era justamente esse divórcio entre os sentimentos pessoais e as posições políticas. Não poderia imaginar que seu anticomunismo faria dele uma vítima da mesma armadilha que tentava combater.

A História, meus caros, é uma garota mimada que não aceita ser ignorada assim desse jeito de modo completamente ingênuo. Mais cedo ou mais tarde, ela lança na face dos ignorantes, e do pior modo possível, as provas da completa inseparabilidade entre os sentimentos pessoais e as posições políticas.

Muitos só percebem quando se deparam com os seus filhos, ou os seus pais (as gerações andam um tanto quanto do avesso), vitimados por um regime que eles mesmos defenderam ou que, até mesmo, ajudaram a construir.

Nestas horas, é quase sempre tarde demais!

*Rafael Saddi é vocalista da banda de punk rock Señores e Doutor em História pela Universidade Federal de Goiás (2009). Atualmente é professor adjunto da UFG (Universidade Federal de Goiás). 

Vinícius Mesquita
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Um ser errante. Formado em Jornalismo, fã de rock 'n' roll e viciado em futebol. A loucura é a única forma de permanecer-se são.

1 Comentário

  1. Nelson Rodrigues Filho não foi libertado no final da década de 70. Ele foi um dos nove presos q foram trocados pelo embaixador americano.

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