Sótão: banda de rock alternativo goiana formada por quatro sonhadores

No topo da casa, o sótão é o lugar onde lembranças são guardadas e o indesejado é esquecido. A residência pode até ser segura e banal, mas esse espaço escondido é um dos poucos que ainda permitem certo mistério no cotidiano. O quarto escuro e empoeirado serve de metáfora para o atual projeto musical de quatro amigos que se intitulam como ‘sonhadores’ 

Asafe Ramos (guitarrista e tecladista), Ronaldo Bueno Jr. (baterista) e os irmãos Gabriel (vocalista e guitarrista) e Lucas Queiroz (baixista e vocalista) formam a Sótão, uma banda goiana de rock alternativo, que revisita sentimentos da adolescência e reencontram memórias guardadas com um certo gostinho de saudosismo pela infância.  

Lucas e Gabriel nasceram em Goiânia, mas se consideram rio verdenses, por ter passado grande parte da infância e adolescência na cidade que fica no sudoeste do estado. Com uma mistura de influências vindas do pai que ouvia hard rock e heavy metal e do vô que gostava de bossa nova e música latina, a paixão por música seria inevitável. 

 “Fazer amigos por si só, já é uma forma de sucesso e nesse sentido, nós já chegamos lá” 

O baterista da banda, Ronaldo, tem 20 anos e toca o instrumento desde a adolescência. Com formação musical inicial na igreja, a Sótão é sua primeira banda ‘séria’, mas antes já havia se aventurado em alguns projetos de covers. Assim como ele, Asafe também começou em igreja, primeiro tocando contrabaixo e depois passou para guitarra, além de arranhar um pouquinho no teclado. O guitarrista foi o último a entrar para a Sótão, sendo considerado pelos amigos como o “contraponto criativo da banda”, por seus gostos mais “diferentões” 

A banda se iniciou em 2015 e desde então, já marcou presença nos principais festivais locais, como o Grito Rock (Atual Grito Goiânia), Vaca AmarelaGoiânia Noise e Bananada. No ano seguinte à sua criação, foi lançado primeiro álbum, intitulado Só(tão), numa brincadeira de sentidos das palavras, o trabalho reflete o amadurecimento pessoal dos integrantes, retratando medos e incertezas que vão sendo deixados para trás, abrindo espaço para esperança, em relação ao que ainda está por vir.

Como a Sótão começou?  

Gabriel: O Lucas tinha várias músicas guardadas desde a adolescência, mas que não cabiam na nossa banda da época, que por sinal já estava caminhando a longos passos para o fim. Meu irmão [Lucas] havia entrado numa banda cover de Paramore, aí fiquei com um pouquinho de ciúmes, porque ele estava em outro projeto sem mim, e então, resolvi arriscar a montar uma banda também, junto com o Pedro Mendes que foi nosso primeiro guitarrista. Mas, logo o Lucas ficou com muito mais ciúmes ainda, por eu ter um projeto autoral, então me pediu para participar da banda. Aí eu mandei ele fazer uma música em 3 dias, logo ele ressuscitou uma melodia de 2006, colocamos uma letra e tínhamos A Vida Me Ensinou. Nisso, eu já conhecia o Ronaldo, de um tempo em que eu trabalhava em uma casa noturna. Lembro que ele achou que eu tivesse atendendo ele de mau humor (risos).  

Depois disso tudo, o Pedro decidiu sair da banda para seguir um projeto mais psicodélico. Então, meu irmão, em uma igreja, acabou conhecendo e se tornou muito amigo do Asafe. O Asafe começou nas gravações de A Vida Me Ensinoudando uns pitacos. A gente sentiu que seria natural a entrada dele, então, nós o chamamos e ele aceitou de pronto. Com uma marmita de domingo, comendo frango assado lá no monumento da Avenida 85, a gente já era uma família.

De onde veio a idéia do nome Só(tão)?  

Lucas: O Projeto inicial não se chamaria Sótão, iria se chamar “Casa Velha” e, faríamos um EP com nomes de quartos e objetos da casa, porque a gente realmente mora numa casa muito velha, têm cerca de 200 anos de idade, lá na Campininha, e então, entramos nessa! Compusemos “Abajur” e “Olavo”, fiz todas as artes visuais, mas aí a gente resolveu dar um Google pra ver se já tinha outra banda com o mesmo nome, só por via das dúvidas, e BAM! Tinha várias “Casas Velhas”.  Daí eu estava escrevendo um poema, que iria ser uma música do álbum, intitulado “Sótão” (que depois virou El Salamino) que falaria das coisas maravilhosas da infância, que a gente guarda para um dia usar de novo, nesse lugar meio que é meio místico, aí por causa disso, decidimos fazer o nome da banda também de Sótão. Felizmente, não tinha ninguém com esse nome e na hora achei legal fazer a brincadeira entre o nome Sótão e a expressão “Só, tão…” e ficou bonito no papel, mas o nome parenteseado ficou só para nosso primeiro EP, porque tivemos muita confusão, há alguns meses já somos apenas Sótão.

Sobre isso, o primeiro EP da banda vocês lançaram em 2016. Como foi esse processo?  

Lucas: Foi bem diferente! Com nossa ex-banda, eu e o Gabriel nunca conseguimos materializar um lançamento bem feito, com divulgação, clips, gravado em um belo estúdio. Era tudo incompleto, tinha um ar enorme de amadorismo, mas na Sótão a gente encontrou um equilíbrio. O Asafe é talvez o grande responsável por isso, ele organizou nossos processos, fez uma tabela de coisas a fazer, ele tem uma ótima visão macro. Eu pessoalmente achei que estivéssemos redescobrindo a roda e, a banda ia ser um grande sucesso em Goiânia, principalmente por esta nova sensação de organização e profissionalismo, mas um lançamento nunca é algo simples, é bem parecido com ter um filho.

Um EP ou Album, nasce e a banda começa a tocar, criar uma identidade, um público, aí as músicas crescem, algumas que achamos que seriam mais populares falharam na missão, algumas que a gente não esperava tanto marcaram profundamente as pessoas. Acho que isso faz parte da diversão de ser músico, lidar com o público, dar tempo, ver as coisas tomar seu rumo, crescer da sua maneira. Nunca é igual, por isso é tão divertido e fascinante para mim. Creio que a Só(tão) foi um ótimo ponto de partida, e que nos trouxe bastante maturidade inclusive para nossos próximos lançamentos e sonoridades. A sensação é de dever cumprido, 2016 foi lindo, fizemos ótimos shows, terminamos esse trabalho em 2017, fomos muito bem recebidos e queremos continuar isso, com novas páginas em 2018.

E como funciona a criação das músicas?  

Gabriel: Não existe uma “lei” para isso. O Lucas e eu somos os que mais escrevem, a gente gosta muito de escrever, isso já vem da nossa infância, nosso avô maternal (que inclusive tem uma faixa em que recita o poema, e é o “El Salamino”) nos incentivou muito a isso.  

Nós geralmente bolamos um arranjo e uma letra, sentamos eu e meu irmão e alinhamos ali um esqueletinho, que mandamos para o Asafe e o Ronaldo, se eles gostarem a gente continua. O Asafe vem até aqui grava uma guia e a gente faz diversas prés produções, até chegar a algo que achamos sólido e bom, daí levamos pro estúdio e fazemos uma nova leitura com alguns insights dos nossos produtores no primeiro EP. Foi o Luis Calil das bandas Cambriana e Ara Macao, que produziu a gente, agora estamos produzindo com o Gustavo Vazquez do MQNRocklab, que é um monstro sagrado do rock goiano e já temos uma música prontinha pra ser lançada. 

Quais são as influências que vocês carregam?  

Ronaldo: Acaba que eu o Gabriel e o Lucas, temos um grande consenso musical, mas o Asafe é bem diferente da gente. Como Sótão, buscamos como influências bandas organizadas, bem pautadas, perenes, e que fazem um bom som, nem que seja um bom arroz com feijão. A gente gosta muito do momento atual do Brasil, da Scalene, da Supercombo, da Versalle e da Fresno também, já que é uma banda muito bem consolidada. No exterior gostamos do U2, Radiohead, entre outros caras que se juntam pra fazer um bom som sincero e bem trabalhado.  

E como é ser uma banda autoral no cenário cultural de Goiânia?   

Lucas: Goiânia é uma cidade aberta culturalmente a projetos independentes, mas acaba que é um pouco uma “faca de dois gumes”, porque a cidade produz tanta música independente de qualidade, que acaba sendo no mínimo um pouco “aterrorizante” entrar no meio disso tudo e se sentir “relevante”. A cidade conta com muita cultura, mas ainda é difícil patrocinar projetos e receber algum dinheiro com música autoral, visto que muitos dos shows de bandas menores e de abertura, como é nosso caso não são remunerados. Então cada vez que sai algo de nossa autoria, muito tempo e trabalho foram despendidos para que aquilo acontecesse e acaba atrasando alguns dos nossos planos também toda esta falta de recursos, já que dependemos das nossas próprias inciativas, e não nos encontramos em momentos financeiramente estáveis. Nós dependemos muito do cofrinho. Ultimamente lançamos um projeto de “crowdfounding” nosso site, para tentarmos lançar um novo EP, ou pelo menos a nossa nova música que já está pronta.

O que podemos esperar para o quem vêm por aí? O próximo lançamento será em breve?   

Asafe: Felizmente sim e já temos uma música gravada, mixada e masterizada pronta pra ser lançada. Precisamos terminar essa nossa campanha de arrecadação, para que possamos pagar algumas taxas e fazer um clip para a nova faixa que se chamará Terminal. Pretendemos lançá-la já no primeiro semestre de 2018 e, se conseguirmos financiamento suficiente, temos já músicas para um EP completo e quem sabe, um álbum. Mas faremos tudo com bastante calma e planejamento, para que tudo seja feito da melhor forma possível, temos algumas surpresas e cartas na manga, que se funcionarem bem, aparecerão agora em 2018.

Banda de rockalternativo goiana formada por quatro sonhadores”. Onde vocês sonham em chegar/levar o som de vocês?   

Lucas: Onde eu como músico quero chegar é uma pergunta que venho me fazendo todos os dias nos últimos 2 ou 3 anos e acho que isso é um consenso com os meninos. Posso dizer isso desde o Gabriel e o Ronaldo que são mais ambiciosos e esperançosos, no quesito de viver de música, até o Asafe que quer apenas criar e se contentar com algo bom e de qualidade que impacte o mundo de forma positiva. Eu e a Sótão nos encontramos na grande intersecção disso, seria muito bom ganhar cachês, viver exclusivamente para a música, mas acredito que de certa forma já atingimos grande parte destes objetivos, que foi principalmente nos conhecer, conhecer pessoas de outros estados e cidades, que gostam, entendem e se sentem motivados pelas nossas músicas. Isso é mágico por si só, seja uma, duas ou três pessoas… fazer amigos por si só já é uma forma de sucesso e, nesse sentido nós já chegamos lá. Vejamos o que o futuro tem preparado para nós, mas sempre a banda será pautada em trabalho duro, sincero e no nosso melhor.

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Juliana Camargo
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Jornalista, escorpiana, feminista, filósofa de bar e expert em assuntos aleatórios e sem nexo.

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