Steven Spielberg e a Operação Carne Fraca

 

A última película de Steven Spielberg relata um momento sensível de singularidade nos conflitos de interesses que o Brasil vive constantemente: o valor da mídia. O filme, que concorre a duas estatuetas, relata a dificuldade que existe em manter os interesses públicos sem prejudicar os interesses pessoais, ao ter que optar entre pôr em risco a vida útil do jornal The Washington Post e manter o compromisso com a veracidade dos fatos com que se depara. Na verdade, diria que podemos adicionar mais uma vertente, que são os interesses nacionais. Por assim dizer, ao garantir uma das máximas do jornalismo com o direito de imprensa, Maryl Streep, que interpreta Katharine Graham, dona e editora executiva do jornal, se depara com uma pedra em seu caminho ao poder colocar a diplomacia do governo dos EUA em xeque.

Um momento delicado como esse pode ter acontecido recentemente no Brasil, com a deflagração da operação Carne Fraca que pôs o Brasil numa sinuca de bico com o mercado financeiro. Ao todo, 30 empresas foram acusadas de envolvimento em corrupção e na adulteração de carnes e derivados, entre as acusadas os goianos da JBS  e a BRF, que por si só correspondem à 80% do mercado de bovinos no país. A exposição diária das empresas nos principais meios de comunicação chocou a população que como reação imediata freou o consumo. Os jornais televisivos e impressos por uma semana inteira tiveram como chamada inicial o desenrolar da operação. Para um país que passava (passa) por dificuldades em se reestruturar comercialmente, a operação pegou muito mal em âmbito nacional e internacional. Como resposta imediata, a China, uma das grandes importadoras de carne brasileira suspendeu a compra com o Brasil, e os EUA já ameaçavam. O mercado interno despencou.

A exposição diária e exacerbada da operação fez com que o país em uma semana caísse seu ritmo de recuperação. E foi nesse momento em que Michel Temer fazia de tudo para ter suas ambições em dia, chegou até a fazer foto para parecer bem na fita. Alí, naquela churrascaria de Brasília, com o convite aberto para os fotógrafos e impressa, pode-se ver o desespero do executivo em manter as aparências. A operação foi um fiasco para os planos de Temer. Nada me leva a pensar o contrário de que não houve uma pequena reuniãozinha com clube dos magnatas da comunicação para que se fosse pedido uma trégua nas notícias.

Assim como a editora do Washington Post passou por um conflito moral e de reflexão sobre seu protagonismo perante o que tinha nas mãos, a imprensa brasileira parece se negar a viver esses embates de moralidade. Katharine Graham fez o que muitos homens brancos e ricos não tiveram coragem de fazer: publicar pelo compromisso de se poder publicar.

Teoria da conspiração colocada, analisemos os fatos. A operação é deflagrada numa sexta, 17 de março, o presidente aparece no domingo, dia 19 se lambuzando com picanha, dia 23, quinta-feira não se falava mais em Carne Fraca. Os acusados ainda respondem na justiça e ainda há movimentação jurídica e das partes, mas os holofotes já não mais iluminam o que acontece por lá.

E a explicação me parece muito simples, os jornais brasileiros NÃO tem o mesmo culhão de um Times ou The Post para manter suas convicções, bater o pé e manter a veiculação das notícias que possam envolvem a sensível reestruturação do país. Casos no exterior estão cheios, Pentagon Paper, Watergate, Baía dos Porcos e Wikileaks. Katharine teve a oportunidade de simplesmente não imprimir uma única palavra sobre os relatórios que sua redação recebera que dissecavam o envolvimento dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã, mas ela não se sujeitou a isso.

No Brasil, a luta e a paixão da imprensa parecem ter morrido na ditadura militar, pois desde então, nada se tem ouvido falar. O Brasil anda tão quieto assim em notícias ou será que temos uma mídia compra pelos poderosos.

Até onde o interesse público se sobrepõe ao bem-estar nacional? Por qual vale a pena lutar?

 

Andre Barbosa
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Jornalista, músico e palpiteiro político-econômico. Estudante-pesquisador de direitos humanos, gênero e marcadores sociais.

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