Villa Mix e o “pop de segunda linha” – artigo de Rainer Gançalves de Sousa

Imagine que, daqui cinquenta anos, um pequeno grupo de pessoas resolvesse discutir o que marcou a música e o mundo do entretenimento no início do século XXI. Sem dúvida, alguma dessas pessoas vão dizer que, nesse período, o mundo da música massiva foi marcado pela hegemonia dos grandes shows. Depois que o disco físico virou um grande nada, a chance de monetizar com música se concentrou fortemente na realização das apresentações ao vivo.

Continuando nessa conversa, imaginemos que esse grupo de pessoas fosse brasileiro e que, por isso, eles passassem a debater quem realmente ganhou dinheiro nesse novo contexto. Sem dúvida, o mais leigo desse grupo passaria a citar uma série de nomes de cantores, variando entre o gospel, o pagode, o funk e o sertanejo. Por outro lado, um participante mais bem informado não falaria somente de artistas, mas das empresas que nos anos 2000 e 2010, passaram não só agenciar esses artistas, mas também produzir os grandes festivais.

Uma hora ou outra, se a conversa descambasse para o poder dessas empresas, o nome da AudioMix seria o mais relevante a ser debatido. Proprietária do Festival Villa Mix, a empresa replica seu grande evento em diversas cidades do Brasil e, ano após ano, incrementa a tecnologia e as vantagens oferecidas aos clientes que consomem a sua marca. Muito disso, logicamente, se deu à longevidade da música sertaneja enquanto fenômeno cultural massivo. Afinal, desde a década de 1990, esse é o gênero musical com maior capacidade de arrastar multidões em terras brasileiras.

Além de ter uma certa duração no tempo, esse sertanejo adentrou o século XXI com força por um outro motivo: superando o debate interno da “preservação das raízes”, vários cantores sertanejos passaram a se aventurar em outros gêneros. Principalmente através das chamadas “parcerias”. Em outras palavras, poderíamos dizer que aquela ideia que Leandro & Leonardo, Zezé di Carmago & Luciano e Chitaozinho & Xororó tiveram com a criação do show AMIGOS, se transformou em algo muito maior do que eles mesmos imaginaram.


Leonardo, Chitãozinho & Xororó e Zezé de Camargo & Luciano (Fonte: ViolaBoa)

Foi então que as duplas e cantores, já no século XXI, resolveram não só a gravar músicas entre si, mas a gravar com artistas de outros gêneros e incorporar esses gêneros em seu próprio hábito composicional. Se no campo da política, vez o outra se fala na promoção de “frentes amplas” para se resolver impasses e crises, no campo da música, os sertanejos se atentaram a isso muito antes que “o fim do disco” viesse a impactar suas vidas. Unidos, eles conseguiram fazer mais grana e sucesso de um modo incrivelmente eficaz.

Contudo, como todo mundo sabe, não existem fórmulas mágicas e eternas nesse meio. Basta ver a derrocada do axé, que nesse mesmo período se reduziu às polêmicas e piadinhas envolvendo o Cumpadi Washington, a Ivete Sangalo e a Claudia Leitte. Na condição de empreendedores atentos, o pessoal da AudioMix resolveu fazer uma jogada que – pelo menos no médio prazo – fará com que sua marca brilhe tranquila no cume das grandes cifras que movimentam esse setor da indústria do entretenimento.

Mas que jogada foi essa? Simples: incorporar as chamadas “atrações internacionais” no line-up dos seus festivais.  A importância disso poderia se limitar a ideia de que “o brasileiro” adora babar um ovo para gringo e não teria como isso dar errado. Essa pode até que essa seja a jogada, mas ela me parece bem mais complexa.

Ao incorporar artistas internacionais, o Villa Mix não realizou aquelas ideias mequetrefes de somente chamar “DJ’s-de-não-sei-aonde” que possuem custos de contratação e logística baixíssimos. Eles realmente foram ao mercado do pop internacional, mas buscando artistas que não cobram os cachês de uma Lady Gaga ou de um Bruno Mars da vida. Além de serem mais caros, a inserção desses “gigantes” em determinados festivais é complicada, pois envolve fatores que extrapolam o simples fato da AudioMix ter ou não a grana para bancar.


Demi Lovato, uma das artistas que inauguraram o “pop de segunda linha” no Villa Mix (Fonte: globo.com)

Curiosamente, isso não acontece numa outra camada do pop internacional, que eu chamo aqui de “pop de segunda linha”. No “pop de segunda linha”, independente da qualidade musical de seus representantes, a demanda por novos mercados e a incerteza do estrelato são questões de grande importância. Ainda que uma música estoure ou que a conta do Instagram esteja bombando, os artistas dessa “segunda linha” não têm clareza de que suas próprias carreiras consigam extrapolar o arco temporal de uma década. Por essa razão, são mais acessíveis e tem todo interesse em participar desse tipo de evento.

Em contrapartida, o crescimento do “pop de segunda linha” aponta também para uma leitura que a própria AudioMix faz do seu público consumidor. Em linhas gerais, a incorporação desse pop atrai um número significativo do público adolescente e LGBT. Principalmente daqueles que gostam de música pop, mas que não permitem o sertanejo povoando – a não ser por motivações meramente sarcásticas – o universo de suas playlists.

Essa leitura é tão verdadeira que, nesse ano, a AudioMix teve a péssima ideia de criar um “camarote LGBT” em sua edição mineira. Não que o desenvolvimento de eventos com público exclusivo seja uma má ideia. O problema é achar que seria possível fazer um recorte desses em um festival que nunca se definiu desse modo. Se o Villa Mix se vende como festival que quer juntar cada vez mais gente, não faz sentido criar espaços exclusivos no interior dessa mesma estrutura de entretenimento.

Passado o vacilo, parece que o festival tem toda a condição de prolongar esse namoro com o “pop de segunda linha”. Não serão uma ou duas pessoas que, sabendo da chegada desse som no festival, não só se dispõem a pisar na balada de origem sertaneja, mas que também gastariam uma grana considerável pelo ingresso. Afinal de contas, muitos eliminam custos com viagem e hospedagem tendo o “pop de segunda linha” dando sopa no seu próprio quintal.

No fim das contas, para os interesses da AudioMix, esse tipo de ação garantirá que os públicos e o valor de seus ingressos continuem aparecendo em curva crescente nos balancetes da empresa. Se brincar, mesmo que o sertanejo deixe de ser um fenômeno musical massivo, o festival poderá sobreviver. E esse parece ser o grande sinal desses tempos: os festivais sendo mais poderosos e relevantes que os gêneros musicais que originalmente os justificam.

(Rainer Gonçalves de Sousa é Mestre em História, Professor do IFG/Campus Goiânia.)

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