VILMA RODRIGUES, a anapolina mais importante!

Certa vez o poeta Carlos Drummond de Andrade apontou Cora Coralina como a goiana mais importante, causando alvoroço entre os que desconheciam os versos da poetisa. Cora afeita a doces e a simplicidade da vida acabou com o passar do tempo se tornando uma figura internacionalmente conhecida.  Na última semana a cidade de Anápolis perdeu uma mulher de elevada importância política e social, a vereadora e radialista Vilma Rodrigues.

Em seu primeiro mandato, Vilma teve quase 4 mil votos, se tornando a mulher com maior votação da história para a Câmara Municipal, e desenvolvia um mandato qualitativo e criativo, em defesa dos idosos, pessoas com deficiência e com pessoas com câncer. Arrisco afirmar que Vilma era a mulher anapolina mais importante do cenário político atual. Mas não conduzirei esse artigo pelo viés de seus projetos enquanto vereadora.

Conheci Vilma numa palestra que ministrei sobre “ética na vida pública” durante a semana de formação dos novos vereadores. Na ocasião conversamos um pouco e fiquei encantado com a simplicidade e generosidade da nova parlamentar. Lembro-me que ao ser apresentada, a vereadora se identificou como mãe, mulher, radialista, cozinheira de mão cheia e “mariana” fazendo alusão a sua devoção católica.

Naquele dia me convidou para ajudá-la no mandato, apertou minha mão dizendo que precisaria de mim. Recusei de pronto, pois tenho vínculos diretos com outro segmento político, que me comprometem com a construção de outros projetos, mas disse que poderia ofertar um treinamento sobre habilidades comunicacionais para potencializar seus discursos e alinhar as ações.

No primeiro café percebi que Vilma não merecia a plasticidade doa “moldagem do discurso”, o que tinha de melhor era a verdade solta entre risadas e frases longas, de uma história que emendava em outra, nos fazendo sorrir sem parar e confundindo nossa racionalidade cartesiana. Mas não deixamos de manter contato, e a cada encontro era uma festa. Ela queria conhecer minhas sobrinhas e me levar num pesque-pague de um amigo próximo.

Sempre que eu estava na Câmara, ela me levava um abraço e muita risadas. Quando tomávamos um café brigávamos pra ver quem pagaria a conta, até isso era divertido. Era uma eterna maternagem, deixando-nos à vontade como filhos. Sempre gostei de gente diferente, descontraída e Vilma não era nem um pouco normal, nada comum. Tinha uma generosidade enorme, vide o trabalho nos asilos da cidade. Num mundo onde todos correm atrás de lucro, ela passava os finais de semana oferecendo cuidado aos idosos abandonados.

Vilma era meiga, doce, mas ao mesmo tempo era forte e robusta. A notícia de seu passamento entristeceu a todos e fez uma quinta-feira amanhecer cinza, sem cor e sem sabor. Todos que de alguma forma a admiravam amanheceram sem voz. 

Foi o advogado Aquila Pinheiro, seu assessor, que nos aproximou, mediando alguns encontros, sou grato por esse movimento, pois em quinze meses tive uma amiga muito importante e presente. Thaís participou de alguns, era outra filha dessa mãe. Naquela quarta-feira de noite escura (termo cunhado por Madre Teresa) não havia espaço para muitas palavras. Os quinze meses se encerravam e a anapolina mais importante fechava precocemente sua jornada terrena. 

Durante a missa de corpo presente, celebrada pelos franciscanos tão próximos de sua atuação e em sua casa mais íntima, a Catedral de Sant’Ana, a fala emocionada do filho sobre a nobreza da mãe emocionou a todos. Distribuímos abraços entre os amigos. Amilton e Geli estavam muito tocados. 

 Ao final, uma de suas centenas de amigos, Késia cantou Ave-Maria, e num rebote de emoção, lágrimas surgiram entre os presentes, incluindo os que não professam essa fé mariana. Não havia espaço espaço para contendas, era a trilha sonora de nossa amiga sendo tocada pela última vez em sua presença material. Lembrei-me de Vilma se apresentando em minha palestra, mãe, mulher, “mariana”. A velocidade da memória me atropelou e me emocionei profundamente. As memórias conversaram. 

Vilma é vida, no sentido mais metafórico da palavra, e ainda é! Vida nos idosos ajudados, nas crianças alimentadas, nos pacientes com câncer defendidos. Vilma é vida em todos aqueles que acreditam que esse mundo pode ser melhor caso cada um faça sua parte. E ela fazia com maestria. Vilma é vida! Com o verbo no presente, com a certeza de estar presente no coração de todos os seus filhos.

Vilma é vida em Manoel Vanderic, em Mona, é vida em Isabel, Eva, Guguinha, Maria, Orádia. Vilma foi para o cenário político a anapolina mais importante e para muitos (os mais necessitados) foi a mais importante para toda a vida! Vilma, feito Cora, recolheu pedras, juntou flores, plantou, colheu, e adoçou a vida de tanta gente! 

 

Texto de Marcos Carvalho

(Foto: Daniel Carvalho)

 

 

 

 

 

 

Be the first to comment

Leave a Reply

Seu e-mail não será publicado.


*